"Navigare necesse; vivere non est necesse".
Compreende poemas e crônicas que escrevo e mais alguns trechos escolhidos de autores singulares. Disponibilizo esses materiais para leitura, análise, crítica, ou qualquer outra forma de aproveitamento ou desaproveitamento. Como disse Eduardo Galeano, "escrever algo é como colocar alguma coisa dentro de uma garrafa e atirá-la ao mar. A possibilidade de que alguém a recolha é sempre remota." José Eduardo Calcinoni
sexta-feira, 30 de julho de 2010
***
A antítese do novo e do obsoleto
O amor e a paz, o ódio e a carnificina
O que o homem ama e que o homem abomina
Tudo convém para o homem ser completo.
(Augusto dos Anjos)
terça-feira, 27 de julho de 2010
Sobre o sentido
O sentido, acho, é a entidade mais misteriosa do universo.
Relação, não coisa, entre a consciência, a vivência e as coisas e os eventos.
O sentido dos gestos. O sentido dos produtos. O sentido do ato de existir.
Me recuso a viver num mundo sem sentido.
Pois isso é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação.
Só buscar o sentido faz, realmente, sentido.
Tirando isso, não tem sentido.
(Paulo Leminski)
Relação, não coisa, entre a consciência, a vivência e as coisas e os eventos.
O sentido dos gestos. O sentido dos produtos. O sentido do ato de existir.
Me recuso a viver num mundo sem sentido.
Pois isso é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação.
Só buscar o sentido faz, realmente, sentido.
Tirando isso, não tem sentido.
(Paulo Leminski)
A VERDADE DO POETA
Quando um poeta diz à uma mulher que a ama,
Quase sempre está dizendo uma verdade,
Os poetas não mentem, e sabem que o amor é chama,
E amam intensamente, mas com uma dose de leviandade.
Dirás então que o poeta é sempre um leviano,
Mas tu erras em teu precipitado julgamento,
O poeta é um pouco mais que um ser humano,
Algo de divino está presente em seu pensamento.
Que mal há em amar então muitas mulheres
Se para isso é que elas foram feitas;
Mulheres são como flores, para serem colhidas,
Admiradas, cheiradas, serem belas e perfeitas.
Não há traição, portanto, nas intenções de um poeta,
Muitos de seus amores não passam de um sonho.
É que amar a beleza da mulher é sua grande meta,
E eu ponho minha mão no fogo por isso, juro que ponho.
A mulher que tiver um marido poeta, amante ou namorado,
Sem dúvida será uma mulher extremamente amada;
Pois o poeta entrega sua alma quando se diz apaixonado,
Entrega-se tanto a ela que nunca lhe faltará nada.
Mas se as mulheres forem daquelas que de tão ciumentas,
São capazes de exigirem mais atenção e exclusividade,
O poeta sente-se como se estivesse ardendo entre pimentas,
E desiste daquele amor e parte sem sentir saudade.
Não se zanguem, portanto, mulheres de minha vida;
Aceitem esta leviandade romântica e apaixonada,
Pois estarão mais seguras, amadas do que perdidas,
E é muito melhor ter só uma parte do que não ter nada.
(Ivan Jubert Guimarães)
Estilhaço
Sou poeta. Realista. Real como sou, mas não como sou poeta. Agressivo e meio estranho. Talvez normal - pouca pinta de mal. Simples. Na simplicidade que penso. Ilusionista. Um pouco rouco. Leio gibi e revista pouco. Amargo. Ouro e escarro. Poeta? Que sarro! Um caminho atrás. Já ouviu falar de amor? Ouvirás. Precoce. Transpiro e inspiro. Espirro e tosse. Na droga do pensamento. Careta. O que vale pode ser momento. E desse, apenas meio. Inteiro? Devaneio. O que vejo é o que veem. Não enxergam? Creem? E agora o que faço? Nada! Estilhaço. Não me lembro. Penso, logo existo. Ou existo porque penso? Esse caminho é uma jogada pouco estranha. Fácil. Se não se acerta, ao menos arranha.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Vá
Nem sempre mudam as estradas
(De repente, a forma de se caminhar nelas?)
É preciso observar, sentir, sonhar, seguir...
Criar o que para muitos sempre esteve pronto.
(Destino?)
quarta-feira, 14 de julho de 2010
1/2 - 1/2 - 1/2
Eu procuro alguém que na vida me satisfaça
A metade da metade da metade
dos meus sonhos
A metade da metade da metade
dos meus desejos
A metade da metade da metade
dos meus prazeres
A metade da metade da metade deles.
E mesmo assim, com minha procura
não me satisfaço só com metades
(sempre busco outras metades)
Mas elas só serão metades das metades das metades
(somente metades)
com isso, acabo me dividindo sempre em mais metades
sexta-feira, 9 de julho de 2010
SEGREDO (Carlos Drummond de Andrade)
A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.
Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.
Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
PEQUENEZ
E fostes tão algoz
agora
porém
não és o mesmo de outrora
E fostes além dos riscos
agora
porém
estagnas num árduo conforto
E fostes tão instável
agora
porém
ancora num lago sem beiras
E fostes tão quase
agora
porém
pensas que um dia fora
E fostes tão por fora,
agora, porém,
estás mais dentro do que nunca.
E fostes tanto
agora
porém
tens a certeza de ser pouco
terça-feira, 14 de julho de 2009
Música
Na minha casa não há bandeiras
não há fronteiras
nem escuridão
Eu me abri
entreguei meu coração
você sorriu, disse não
Nada disso faz sentido
nada me faz sentir
Nada disso faz sentido
sem ter tido
"Querer o meu não é roubar o seu
pois o que eu quero é somente,
simplesmente em razão do eu"*
Há somente uma luz
uma força que me guia
a caminho do que não sei
Há somente poesias ingratas
encarnadas pelo ego do eu
*Trecho da música Novo Aeon, de Raul Seixas
terça-feira, 19 de maio de 2009
Trechos do livro CATATAU, de Leminski, publicado em 1975.

"Que flecha é aquela no calcanhar daquilo? Picatacapau! Pela pena é persa, pela precisão do tiro — um mestre. Ora os mestres persas são sempre velhos. E mestre, persa e velho só pode ser Artaxerxes ou um irmão, ou um amigo, ou discípulo ou então simplesmente alguém que passava e atirou por despautério num momento gaudério de distração. Flecha se atira em movimento, ninguém está parado. Nem o cavalo, nem o cavaleiro; nem a mente, nem a mão; nem o arco, nem a flecha, e o alvo o vento leva: tiro certo. Dentiscalpium in oculo. Todo teu lado direito puxa a linha, todo o esquerdo segura a flecha. Spes! Tiro feito, volta-se à unidade perdida. Mas arcos atrás isso não é coisa que se diga, que se faça, arqueiro pouco diz. Cala-se, de hábito, porque ignora tudo na arte em que é exímio. Depois, velhos não são dados a festas. Lísbia sabatária — bazanz! Sabazii sabaia! Copaplena! Muito sabe, pouco ri. Enquanto muitos riem, os mestres a portas fechadas meditam sobre a guerra. O primeiro gole de vinho melhora o tiro, o segundo gole — só Zenão! Assim como o primeiro tiro aprimemora o segundo tiro, a segunda flecha corrige a receita. Eclipse entra no sol em frente duma flecha persa, o sol pára e Xerxes o preenche a flechas. Como viver à luz de flechas? Da arte — não se vive; ver flor, calar. E calando a boca, de assunto mudo, vamos falar de flechas persas. O assunto me muda. O silêncio, próprio de alunos, instrui. Mas só os mestres sabem calar dizendo tudo. Tudo é ainda pouco. Na gata! Acertou na gata, paragate, parassangate! Tudo não tem detalhes. Na arte, detalhe é tudo, todo cuidado é pouco em se tratando dos mínimos detalhes que lhe derem na telha. Veja um mestre, por exemplo; como se move, como se levanta, como sabe fazer bem as coisas que todo mundo sabe. Mas há mestres e mestres. Nem todo mestre é próspero. Alguns cultivam artes sutilíssimas. Esses, às vezes, não têm apóstolos. São os últimos pioneiros. Livro não adianta. O dedo do mestre é sempre mais que o centro aonde aponta, ou não então? A cara dos mestres é o modelo das máscaras. Que cara alguém terá para erguer a máscara que jaz sobre a cara dos mestres? Tem uma palavra muito boa para dizer isso mas os mestres não ensinam a falar, só a fazer. O que se pode dizer da arte nada tem que ver com ela. O mestre é onde a arte já morreu: por isso, mestres não lutam. Sempre há coisas que aprender: um pequeno truque, um meneio mais rápido, um trejeito gaiato, um grito junto. O que os mestres sabem é o que há para aprender."
°°°
"A sombra traz um vento soprando o lume só para ver a que mundo este se resume. Mina e tresmina, por ventura, se for, pendura: já pensou o que é o bandido na história do gênero humano? O desqualificado atrás dos matos, esperando passar o produtor, e preda-o! Salpicado de súplicas, venham e envelheçam vindo: me castisalfo com pouco, — trinca e destrincha, pierre catrinta! Quem depois de assaltado, roubado e rapto, tendo perdido o senso da propriedade junto com seus pertences, segue seus captores e acaba tetrarca da quadrilha! Quando eu mais contava em ficar louco, fiquei apenas tonto, o que está para o pretendido assim como o pretendente está para a pretensão! Constrangido, quem me constrange? Constrangem-me alfângelos e quimelanges! Acenda essa cozinha, bota a ferver, ferviture-te, salutão! Não foi nada, todos compreenderão: nada sem certa luz que me miliúnica no apagar da vela — aos olhos deslumbra, ofusca, embacia, envesga, cega e vaza. Houve quem dissesse, aqui jaza como se estivesse em sua própria casa, tentando a ferro e fogo passar despercebido por meu ímã e águas, ora, onde é que nós estamos que já não reconhecemos os desconhecidos? Quer ter a bondade de martirizar essa santa ignorância? Levantar o dedo, é só não estarem olhando. Um odor, um abano asmático, um aceno espasmódico, um sínodo sistemático, ou então um som, ou senão for um reflexo, fiquei sem ter o que dizer, na surdina da oitiva, na pior das hipóteses! Quando não dá pé, pergunto: tão raso o quanto antes passei? Escantilhado em conheceiras, convosco quisera cruzadas serenimonhas em outras desencurtilheiras! Um acorde discrepante, um prenhilunho: combates são biscates, destaque os banquetes! O homem idôneo, no momento quandâneo, no lugar ubíquo: lautas mãos pilantras, incólumes na calamidade. Uma cabeçada no pé, uma mancada na palma da mão, uma cotovelada virando o coxo do cachorro magro, uma olhada atravessada, uma pedagógica no meio do pontapeito, amanhã, ao cantar o galo, sem saber de que lado, venham! Me arrependiam os cabelos, perde o pêlo no medo onde se pela, interpelanca: lã costeando, lá se dói tosqueado! Não fale mal de boca cheia, do prato cheio — não vire o ninho da galinha choca, dobre a língua e brade a vagina a seu bom bradar: meteu o braço na cumbuca, a cabeça a quem lhe caiba a arapuca; a perna me coxeia, percebo cancelas naquelas canceiras canelas. Num ouvido, escrito: . ENTRADA, noutro ouvido, escrito: SAÍDA — em cada rasto, a estampa de seu rosto para espanto de todo um outro resto! "
ººº
quarta-feira, 13 de maio de 2009
CURTAS ººº
Amanhã é outro dia
depois de amanhã outro
de repente, outros dias virão.
°°º ººº ººº ººº
Hoje sonhei estranho.
Tão sujo sonho.
Só restou-me um banho.
°°º ººº ººº ººº
O mar caminha pela areia
Vago na praia a procura:
Conchas, lâmpadas, sereias...
°°º ººº ººº ººº
Minha maior irresponsabilidade
Foi um dia acreditar
nessa tal responsabilidade.
°°º ººº ººº ººº
De onde todo encanto?
Promessas de amores?
Milagre de algum santo?
°°º ººº ººº ººº
Nadou, nadou,
Nada!
Afundou.
°°º ººº ººº ººº
Tudo ficou em paz.
Lendo um poema raso,
morri uma noite atrás.
°°º ººº ººº ººº
Nada foi tão quanto
Quanto foi tão nada
Quanto nada! Quanto?
°°º ººº ººº ººº
Dor elegante.
Tão dolorida que dói,
elegantemente todo instante.
°°º
depois de amanhã outro
de repente, outros dias virão.
°°º ººº ººº ººº
Hoje sonhei estranho.
Tão sujo sonho.
Só restou-me um banho.
°°º ººº ººº ººº
O mar caminha pela areia
Vago na praia a procura:
Conchas, lâmpadas, sereias...
°°º ººº ººº ººº
Minha maior irresponsabilidade
Foi um dia acreditar
nessa tal responsabilidade.
°°º ººº ººº ººº
De onde todo encanto?
Promessas de amores?
Milagre de algum santo?
°°º ººº ººº ººº
Nadou, nadou,
Nada!
Afundou.
°°º ººº ººº ººº
Tudo ficou em paz.
Lendo um poema raso,
morri uma noite atrás.
°°º ººº ººº ººº
Nada foi tão quanto
Quanto foi tão nada
Quanto nada! Quanto?
°°º ººº ººº ººº
Dor elegante.
Tão dolorida que dói,
elegantemente todo instante.
°°º
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Pode ser que seja (música)
Mais um dia/uma palavra
Um sol/um só
Ao meio dia/a noite inteira
Um laço/um nó
Uma palavra/uma só boca
Uma lição que sabe de cor
E assim será
quem sabe seja?
Um pessoa
ou todos nós
Uma descida/uma bebida
Meia vida/melhor
No deserto/no mar
Palavra simples/código-mor
Numa estrofe/da poesia
Na caída/do sol
Na encruzilhada/na restinga
Há muitas milhas/há muitos nós
Numa rima/na melodia
Na multidão/a sós
Num precipício/numa planície
Na carne viva/no pó
E assim será
quem sabe seja?
Um pessoa
ou todos nós
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
POEMÁGUA
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Guerra a quatro patas: ritmos adultos e melodias infantis
É guerra dentro da gente. Já com quatro patas a engatinhar tentar o impossível. A simplicidade navega pelas bordas da embarcação. Criança tem tema, enredo, estrutura e linguagem. Literatura e poesia, canção e ruído, verso e ritmo. A natureza exótica num conceito antigo. Um veículo da arte sem estar a serviço da arte. Uma atitude anti-dirigista irrompendo o decreto de funções, utilizações e modelos de comportamentos.
Deixar o sentimento deslizar pela boca. Facilitar a metamorfose ambulante do mundo. Chorar quando necessário, gargalhar quando conveniente e mostrar os caninos quando preciso. Não deixar habitar vergonhas e indiferenças, não se acorrentar em malícias ou falsos sentimentos. Brigar, pular, berrar, esquecer, desafiar, propor, deleitar. É ser infantil e não infantilista. Abusar da sinceridade. Achar o mundo perfeito. Quando não é! Não é? Não! Quando pode ser! Será?
De certa forma, ser criança é se libertar da superfície chamada “razão”, que impõe regras e reprime o desejo de mergulhar profundo. É fazer, ir, mais além que uma receita de bolo. É se lambuzar, desconstruir e testar idéias, deslizar pelo novo e interiorizar sensações, não compactuar verdades absolutas, voltar a experimentar sabores que estavam esquecidos, ter essência, medo. Mas, ser criança não é ser imaturo, nem nostálgico. É adaptar alguns itens do cardápio da infância com desejos e obrigações e não deixar que a estaca da responsabilidade censure o instinto da liberdade. É harmonizar atitudes e conceitos.
As obrigações das fases posteriores (ou o estresse, mesmo) atraem outros mundos, alguns, paralelos. Problemas, maus-humores, rancores. Falta de sinceridade com a gente mesmo. Engasga como fosse uma azeitona presa esperando uma pancada nas costas para cuspi-la. Parece aquele cara da propaganda eleitoral que tem uma abelhinha no ouvido. Só faltava começar o texto dizendo: faz quatro anos que uma azeitona entalou na minha garganta...
Criança transcende qualquer conceito, apesar dessas palavras. Dia comemorativo é só para homenagear, ou reforçar o esforço de libertá-la, como no meu caso. E ainda tem gente que detesta que criança seja criança.
(Crônica publicada na revista Premier - Edição nº 24 - Outubro 2008)
http://www.revistapremier.com.br/pagina_nova.asp?id=386&trava=Crônica
terça-feira, 7 de outubro de 2008
A complexidade do público e privado
Difícil de conceituar, ou até mesmo, diferenciar o “Público” do “Privado”. Poderia sair pelas ruas de qualquer cidade, olhar a igreja, praça, prefeitura, posto de saúde, hospital, centro histórico e nominá-los como um ou outro. A questão estaca no peito algo mais profundo. O surgimento de novos espaços privados, semi-privados, semi-públicos, público-privado — shopping, espaços de lazer de condomínios privados, casa de recepções, espaços virtuais, órgãos públicos com administração privada — de certa forma assumiram uma função acolhedora da vida urbana. A nova configuração possibilitou novas interações sociais. Será que de certa forma decretamos a morte de alguns espaços públicos urbanos? A praça, abandonada, pode ser considerada morta por alguns. Para outros a praça não morre, está ali. Pode sofrer mutações, transformar-se. assim como, os conceitos ocidentais que levamos dela, a luta contra a lógica dominante dos sistemas.
A confusão entre o público e privado remete a uma das principais causas do caos urbano. É uma mistura de fatores históricos com a tendência neoliberal de privatização dos espaços. A mistura das antigas definições com a complexidade de teorizar as mudanças. Uma longa corrente presa ao pé. Os motivos pessoais sintetizam o entendimento de que são sempre mais importantes que os coletivos, alimentando uma espécie de barreira invisível, um narcisismo massivo. A vida privada está sendo trazida ao contexto público. Os espaços públicos onde as pessoas discutiam a gestão de assuntos de interesses comuns se transformaram em espaços publicitários. A paisagem pública passou a ser midiática. Os cidadãos cumprem seu papel: consomem informações.
Definir que tudo que não público é privado ou que tudo que não é privado é público é convencional. Porém, real – talvez a primeira definição que venha a cabeça. Num mesmo ambiente, dois ambientes. As entranhas da discussão parecem estar em delimitar as fronteiras. O público remete a algo de contexto social, coletivo, espaço onde ocorrem as relações políticas, contrasteando, o privado, com sua particularidade-privada-desigual: o shopping, publicizando o espaço e ao mesmo tempo vendendo seus serviços – todos podem estar, nem todos podem consumir. Na internet essa divisão parece não existir. Ao mesmo tempo em que o indivíduo fica privado no quarto, em seu computador, fica exposto ao público, seja através de comunidades, sites, blogs, provocando uma comunicação ampla, flexível. É através dela também que aumentou o espaço comercial, deixando muitas dúvidas sobre seus processos para a inclusão social.
A reformulação dos conceitos desses espaços, ou, um conceito novo, deverá surgir como necessidade para que sejam subtraídas algumas perguntas crônicas. A flecha da intensidade das transformações urbana, a meu ver, criou esses espaços contemporâneos, hoje também resultado das tecnologias da informação. Essas mudanças parecem que remetem o deslocamento dos espaços aos sujeitos humanos, e não mais dos sujeitos humanos aos espaços. Esse mesmo sujeito humano, que tinha vida privada, coloca em xeque agora seu caráter privado (sexo, família, preferências pessoais), e não mais somente sua performance pública. Parece ser absorvido pelo mercado e não mais pelo estado, família ou religião.
(Texto impresso na edição nº 70 do Jornal Experimental Primeira Pauta)
A confusão entre o público e privado remete a uma das principais causas do caos urbano. É uma mistura de fatores históricos com a tendência neoliberal de privatização dos espaços. A mistura das antigas definições com a complexidade de teorizar as mudanças. Uma longa corrente presa ao pé. Os motivos pessoais sintetizam o entendimento de que são sempre mais importantes que os coletivos, alimentando uma espécie de barreira invisível, um narcisismo massivo. A vida privada está sendo trazida ao contexto público. Os espaços públicos onde as pessoas discutiam a gestão de assuntos de interesses comuns se transformaram em espaços publicitários. A paisagem pública passou a ser midiática. Os cidadãos cumprem seu papel: consomem informações.
Definir que tudo que não público é privado ou que tudo que não é privado é público é convencional. Porém, real – talvez a primeira definição que venha a cabeça. Num mesmo ambiente, dois ambientes. As entranhas da discussão parecem estar em delimitar as fronteiras. O público remete a algo de contexto social, coletivo, espaço onde ocorrem as relações políticas, contrasteando, o privado, com sua particularidade-privada-desigual: o shopping, publicizando o espaço e ao mesmo tempo vendendo seus serviços – todos podem estar, nem todos podem consumir. Na internet essa divisão parece não existir. Ao mesmo tempo em que o indivíduo fica privado no quarto, em seu computador, fica exposto ao público, seja através de comunidades, sites, blogs, provocando uma comunicação ampla, flexível. É através dela também que aumentou o espaço comercial, deixando muitas dúvidas sobre seus processos para a inclusão social.
A reformulação dos conceitos desses espaços, ou, um conceito novo, deverá surgir como necessidade para que sejam subtraídas algumas perguntas crônicas. A flecha da intensidade das transformações urbana, a meu ver, criou esses espaços contemporâneos, hoje também resultado das tecnologias da informação. Essas mudanças parecem que remetem o deslocamento dos espaços aos sujeitos humanos, e não mais dos sujeitos humanos aos espaços. Esse mesmo sujeito humano, que tinha vida privada, coloca em xeque agora seu caráter privado (sexo, família, preferências pessoais), e não mais somente sua performance pública. Parece ser absorvido pelo mercado e não mais pelo estado, família ou religião.
(Texto impresso na edição nº 70 do Jornal Experimental Primeira Pauta)
domingo, 10 de agosto de 2008
Outras perdidas por aí ººº
Descobri que era sim
me cobri de um não
mesmo sendo assim
mesmo sendo não
ººº ººº ººº ººº
Corri para fora
depois daquela aquilo
só descobri agora
que poderia ser isso?
ººº ººº ººº ººº
Na era em que velocidade da informação é fetiche
não resta muito tempo
para que o relógio deslize
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Recalque de sintoma obscuro
Ela saiu sem dar tchau. Correu pelas ruas e roubou doces das bocas de crianças. Furou filas dos bancos e pulou roletas na estação. Correu pelas calçadas derrubando latas de lixo e espantou os pombos da praça. Transou no elevador com um estranho e cuspiu do alto dos prédios. Recitou besteiras ao pé do ouvido e gozou sementes de ópio. Foi esposa e amante, mãe e filha. Comprou roupas, carros e acessórios banais. Renegou seu passado e acertou suas contas. Lavou e centrifugou roupas sujas de verbo e lama. Leu aquele antigo livro e mastigou suas páginas. Saiu daquela razão ridícula e mergulhou em várias profundidades na imensidão de um lago. Dormiu de toca. Tomou café adormecido e inseriu doses letais de anti-ansiedade. Vomitou poesias baratas em becos imundos. Musicou seus dramas e teceu suas redes de prazer. Andou sobre brasas e queimou seus clichês. Elaborou coquetéis, levitando repentinamente, ressuscitando ao terceiro dia. Descumpriu os 10 mandamentos em pactos capitais. Absorveu o fluído: dentro pra fora e fora pra dentro. Vestiu-se de rato, gato, elefante, macaco, lobo, cordeiro, cachorro, coruja, urubu, e não pagou mais sapos nem micos-leões-dourados. Subiu no ponto mais alto e gritou. Ali, voou. Atirou-se por mais de cinco eternos segundos. Planou além do ar, todavia, libertou-se apenas de algumas prisões. O que ela alimentava não poderia ser explicado, medido e nem entendido. Em alguma forma que ela estava, sentiu saudades. Sentiu-se presa. Perguntou-se então: sou livre?
(Texto elaborado para a 7ª edição do Sarau Palavras Acústicas)
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Vídeo do Sarau Palavras Acústicas
O Sarau Palavras Acústicas surgiu da iniciativa dos acadêmicos do curso de Jornalismo da faculdade Bom Jesus/Ielusc, de Joinville. Assista. ...
terça-feira, 6 de maio de 2008
Trocadilho com Lynyrd Skynyrd
Ar cortante, decifre
olhos comuns não enxergam
há muitos lugares que preciso ver
Tampouco vapores, tampouco celeste
Nada resta, que virá?
Esse pássaro você não pode mudar
pássaro que
plana alto
descerá (outros lugares)
longe (ou ao lado)
cintilantes
ao acaso
cortantes
como o ar que decifra
voe alto
pois o céu
não se mede
segunda-feira, 5 de maio de 2008
domingo, 27 de abril de 2008
RASANTE
Aos pousos rasos
tropicava
distraía seus tombos
rolava ao chão entre galhos e pedras
emaranhava
retraía os músculos da testa
dopava-se de dores
emancipava
costurava autonomia
vestia-se de pássaro
caía
subia
descia
pousava raso e voava profundo
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Máximas oscilantes
Depois de algum tempo escondido resolvi sair de dentro da garrafa. Não como gênio. Muito menos como quem espera um gênio. Simplesmente como alguém que sai de dentro de uma garrafa. Era sufocante. Nada como estar fora. O relógio girou os ponteiros tão rápido que meu tempo não pode acompanhar. Afinal, era uma garrafa ou uma máquina do tempo? As coisas estão aí. Algumas outras que estavam, não. E essas perguntas me faço: Quem estava? O que estava? Não me lembro! Não lembro! Talvez não devesse lembrar. Algo está ausente. Mas isso não é jogo dos sete erros! O que eu devo procurar? Algo pode estar faltando em qualquer parte, movimento, plano de fundo. O que devo distinguir é se realmente essa ausência faz diferença. Caso contrário deveria deixar como algo que sei que falta, mas não me impede de viver. Dizem que quando a gente não lembra é porque realmente não é algo importante. Dizem outras tantas coisas. Com o tempo talvez não perceba a ausência. Aliás, ela deve deixar de existir. Mas também pode aflorar. Apesar da segurança, preferi o risco. Saí arrotado. Percebi que caibo em pequenos lugares e por menores que sejam, não são desproporcionais pela espacialidade. Na garrafa que me escondi, escrevi um recado. Depois tampei-a e joguei-a ao mar. Um dia alguém a encontra. Hoje, aqui e agora, ainda procuro o motivo pelo qual saí. Creio não estar relacionado com uma ausência. Mas e a garrafa? Essa, talvez ainda navegue em algum ponto úmido ou tenha encalhada por areias desconhecidas.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
QUALQUER
Pássaros e seus cantos martelados sobravam nos verdes mais altos,
reproduzindo não só a espécie,
mas a poesia de um espaço qualquer
Pedras curvavam o meio de alguns caminhos,
simulando aos atalhos,
que seguiam rumo qualquer
Quando o corpo era somente corpo,
a alma caía pelas escadas roubadas,
entrava ao lado das portas fechadas,
seguia por uma rua qualquer
terça-feira, 27 de novembro de 2007
PÁGINA 161
Página 161
Desafiaram-me com a devida ressonância.
1ª) Pegar um livro próximo (não vale procurar);
2ª) Ir até a página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.
E publico o resultado:
"Manuel enrolou a muleta para o touro."
In: Contos de Hernest Hemingway / tradução José J. Veiga. R.J: Bertrand Brasil, 2006.
Esse desafio bate-e-volta, volta ao desafiante, poetaço (mistura de poeta e cabaço) J.B, ao combatente do Baú da poesia, a Casa de Paragens (Rubens da Cunha), para uma criança, e para uma outra desconhecida viciada (conhecida) que descobri por aí.
José Eduardo Calcinoni
Desafiaram-me com a devida ressonância.
1ª) Pegar um livro próximo (não vale procurar);
2ª) Ir até a página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.
E publico o resultado:
"Manuel enrolou a muleta para o touro."
In: Contos de Hernest Hemingway / tradução José J. Veiga. R.J: Bertrand Brasil, 2006.
Esse desafio bate-e-volta, volta ao desafiante, poetaço (mistura de poeta e cabaço) J.B, ao combatente do Baú da poesia, a Casa de Paragens (Rubens da Cunha), para uma criança, e para uma outra desconhecida viciada (conhecida) que descobri por aí.
José Eduardo Calcinoni
FARO
Um instinto alto do prazer
debulhado por vasto trago
atitude similar
[peixe magro]
Caminho destilado de versos
silencia o lago
demolidor de pétalas
[olho de gato]
Nuvem magra, dispersa
ofuscante faro
brinde de água benta
[cheiro de mato]
NECROSE
Há uma saída [tentando sair]
(dúvidas encrustadas)
à espera de coragem
há um momento,
perdido (acolhido)
à espera do achado
há um pecado dormido (amanhecido como o café frio)
à espera da viajem
há uma dúvida pregada (estaqueada)
à espera que a ferrugem corroa
há um estranho no ninho (profano)
à espera do novo alibi
há sangue pulsando (alta pressão)
à espera da navalha
há um poeta, ressentido [quase necrosado]
à espera de coisa qualquer
terça-feira, 25 de setembro de 2007
ALGUNS LADOS (MOLDADOS)
Ao lado, nada mais que um gesto simples, dando a entender o que ali se estranhava. Nada menos que o mais simples, pensando em entender o como se entendia. Possibilidades impossíveis, transportando bagagem maior do que suportava. E mesmo quando estranhava, esperava e suportava, estava sempre ao lado.
ME, MIM, COMIGO; SE, SI, CONSIGO...
Esses dias pensei comigo
e de tanto pensar,
nem lembrar eu consigo.
...
e de tanto pensar,
nem lembrar eu consigo.
...
CONCLUSÃO (AINDA QUE AS VERDADES SEJAM MENTIRAS E AS MENTIRAS SEJAM VERDADES)
Algumas verdades são tão inúteis,
que sempre quando as digo,
penso que estou mentindo!
...
que sempre quando as digo,
penso que estou mentindo!
...
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
FUNÇÃO
De todas as palavras ditas, apenas uma, somente, foi realmente ouvida. Nada que se falasse naquele momento seria tão relevante quanto aquela única palavra. Cantou-se músicas, leu-se poesias, rezou-se, mas nada, absolutamente, podia substituí-la. Porém, como nada é insubstituível, durou-se apenas aquele momento, e depois vieram outras palavras, em outros momentos, insubstituíveis.
...
...
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
ESPAÇO EDUARDO GALEANO
OS SONHOS DO FIM DO EXÍLIO/3
As lentes dos óculos tinham se quebrado, e as chaves tinham se perdido. Ela buscava as chaves pela cidade inteira, às cegas, de joelhos, e quando finalmente as encontrava, as chaves diziam que não serviriam para abrir suas portas.
extraído do Livro dos Abraços
...
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
novo, de novo?
O novo
não é mais novo
não tem nada mais
nada de novo
tão novo quanto
a velha dúvida:
Quem nasceu primeiro:
a galinha ou o (n)ovo?
terça-feira, 24 de julho de 2007
Casos e acasos
Acaso nada poder
podendo causar nada
nada poderá causar
Acaso restando nada
restando nada causar
nada causará restar
quarta-feira, 13 de junho de 2007
TRUQUE
MOVIMENTO
Uma montanha se moveu
[pensamento honrou-mérito]
...objeto moveu
[cartas desmancha-castelo]
...olhar moveu
[enviou mensagem-despautério]
..veia moveu
[coração bate-martelo]
...sentimento moveu
[mostrando instante-belo]
[pensamento honrou-mérito]
...objeto moveu
[cartas desmancha-castelo]
...olhar moveu
[enviou mensagem-despautério]
..veia moveu
[coração bate-martelo]
...sentimento moveu
[mostrando instante-belo]
segunda-feira, 14 de maio de 2007
CRIVO
Dentro de toda indiscrição submissa do compromisso altivo e relapso, existe uma severa corrente que produz intolerâncias e discrepâncias relativas.
O complexo é que na alteridade relativamente composta de vicissitudes e turbulências acromáticas, sempre há por vir uma emblemática e solucionática versão.
O fato se escriva do percurso ambulante, podendo em pequenos instantes desvincular a faculdade de racionar do paraíso elevante da insanidade mental.
A possibilidade se altera aos fatores premunidos de aceitação, e eleva o conteúdo estabilizado ao estado de dormência, descobrindo assim, que o caminho inutilizado mais provável nem sempre é o extremo do caminho convencional.
O complexo é que na alteridade relativamente composta de vicissitudes e turbulências acromáticas, sempre há por vir uma emblemática e solucionática versão.
O fato se escriva do percurso ambulante, podendo em pequenos instantes desvincular a faculdade de racionar do paraíso elevante da insanidade mental.
A possibilidade se altera aos fatores premunidos de aceitação, e eleva o conteúdo estabilizado ao estado de dormência, descobrindo assim, que o caminho inutilizado mais provável nem sempre é o extremo do caminho convencional.
segunda-feira, 23 de abril de 2007
OSSO E BAGAÇO
Se, destas frases tolas que ouço
houver apenas um trago
da poesia suja que me alimenta
poderei ao menos brindar
a incoerência destes fatos
poderei apenas destilar
o run da ignorância
poderei apenas desligar
o aparelho da sentença
Se, destes olhos fracos que enxergo
houver apenas uma dose
da percepção que me orienta
poderei ao menos escapar
da impotência dos fatos
poderei ao menos segregar
o frasco, a fragrância
poderei ao menos distanciar
o espelho do meu rosto
Se, destas poucas palavras restar apenas eu
fico eu sendo resto delas
fico eu sendo o osso
fico sendo eu o osso e o bagaço
houver apenas um trago
da poesia suja que me alimenta
poderei ao menos brindar
a incoerência destes fatos
poderei apenas destilar
o run da ignorância
poderei apenas desligar
o aparelho da sentença
Se, destes olhos fracos que enxergo
houver apenas uma dose
da percepção que me orienta
poderei ao menos escapar
da impotência dos fatos
poderei ao menos segregar
o frasco, a fragrância
poderei ao menos distanciar
o espelho do meu rosto
Se, destas poucas palavras restar apenas eu
fico eu sendo resto delas
fico eu sendo o osso
fico sendo eu o osso e o bagaço
domingo, 22 de abril de 2007
ESPAÇOS VAZIOS (ACIMA DE NOSSOS PÉS E ABAIXO DE NOSSAS CABEÇAS)
Além dos olhos que me guiam todos os dias, e das lembranças fartas de misericórdia, vi, através do mais simples desejo, novas formas de desfrutar diminutos espaços.
Entregue ao compasso desvinculado da razão, saltei sobre a valeta que criava uma divisão em torno de minhas decisões.
Em todos horizontes foi possível descobrir falhas. Espaços vazios camuflados. Lacunas invisíveis. Portas sem trinco. Lugares sem endereço. Palavras ausentes de som e forma.
Diminutos espaços: quase desfrutados.
...
Entregue ao compasso desvinculado da razão, saltei sobre a valeta que criava uma divisão em torno de minhas decisões.
Em todos horizontes foi possível descobrir falhas. Espaços vazios camuflados. Lacunas invisíveis. Portas sem trinco. Lugares sem endereço. Palavras ausentes de som e forma.
Diminutos espaços: quase desfrutados.
...
segunda-feira, 9 de abril de 2007
LENTAMENTE
Se o olho não falasse além
e a lentidão que causasse o sentido, porém
não causasse-o somente,
e além não falasse freqüente
todo ser seria existente
no momento, sentido diferente
causar-se-ia uma lombeira
no olho do sentido ausente
que da lentidão de sentir além
lentamente o deixaria crente
domingo, 18 de março de 2007
CUSPE (AINDA MESMO QUE SEQUE A SALIVA)
Ventre sedento gozado de flores
...
saia do tempo teu
cuspa fora teu caos de amores
...
SER (NO AMPLO SENTIDO DO QUE SE PODE SER)
Se ao menos estivesse sendo
todo ser seria sereno
...
brincando de ser nesse mundo pequeno
todo ser seria sereno
...
PERTO-PASSO (PASSANDO À PASSOS LENTOS)
Aperte o passo
passe por perto
por passe-apertado
passo-alerta
passo-aperte
passado por perto
Aperte: passo-forte
passaporte-alerta
passa: porta-apertada
por passado perto
pé-par, por perto
Passo, posso, peça
apertando o passo
pé por perto
passado perto passo
pequeno ex-perto
...
passe por perto
por passe-apertado
passo-alerta
passo-aperte
passado por perto
Aperte: passo-forte
passaporte-alerta
passa: porta-apertada
por passado perto
pé-par, por perto
Passo, posso, peça
apertando o passo
pé por perto
passado perto passo
pequeno ex-perto
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INCIDENTE
Do que vivi, não peço-me desculpas
Do que deixei de viver, acato como potencial
Crio-me ao acreditar na capacidade do entendimento [mesmo sem entendê-lo]
Faço-me de prosas e versos, palavras sintéticas
Sou poeta, na mais pura incompetência de escrever
Numa auto-investigação,
Na psicografia do meu inconsciente
Escrevo-me, sem saber o que escrever
Provoco-me num absorvente sentimento
Falsa intimidade, farta em detalhes
Desdobrada pelo bel prazer de transformar
Escrevo porque organizo meu submundo
Concilio-me com meus fantasmas
Reconstruo-me nas consoantes e vogais
Destroços de verdades naufragadas em correções ortográficas
Que consolidam a quilha do meu barco literal
Veda os furos um a um
Criando um possível acidente na inquietação de minhas idéias
Do que deixei de viver, acato como potencial
Crio-me ao acreditar na capacidade do entendimento [mesmo sem entendê-lo]
Faço-me de prosas e versos, palavras sintéticas
Sou poeta, na mais pura incompetência de escrever
Numa auto-investigação,
Na psicografia do meu inconsciente
Escrevo-me, sem saber o que escrever
Provoco-me num absorvente sentimento
Falsa intimidade, farta em detalhes
Desdobrada pelo bel prazer de transformar
Escrevo porque organizo meu submundo
Concilio-me com meus fantasmas
Reconstruo-me nas consoantes e vogais
Destroços de verdades naufragadas em correções ortográficas
Que consolidam a quilha do meu barco literal
Veda os furos um a um
Criando um possível acidente na inquietação de minhas idéias
VIDE BULA
Não fuja do que tu és. Acalme-se. Busque a vida que a vida lhe buscará. O segredo não está em ir sempre mais fundo no imenso lago. Ele pode estar em vários lugares ao lado de onde você sempre existiu. Em profundidades tão rasas quanto a superfície.
...
quinta-feira, 1 de março de 2007
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
ROSAS E PROSAS NO VERSO
Rosas e prosas no verso
exaltantes olhos brilhantes
lábios cortantes e incertos
distraindo momentos-intantes
Essência central descentrada
unidade do universo-sentimento
necessidade de purificação travada
finito-infinito em momentos
Impulso irracional insatisfeito
necessidade tragicamente enganosa
finalidade fundamental de direito
fábula fascinante em prosa
Crítica irredutivelmente realista
alienação de desejos e esperanças
enigma da existência monoteísta
hierarquia-guia do homem-criança
Pleno, autêntico e carnal
redutor propositalmente ofuscado
direção especulativa anti-material
encontro sálvico consagrado
Perpectiva pessimista e conflitante
série de contradições inextricáveis
fraternidade universal intrigante
fecundidade de gerações implacáveis
Limitante da liberdade alheia
inesperança sem lógica e sujeição
impessoalidade celebrando ceia
ao bem, à beleza, doce-paixão
Ciência sem ciência, universo latente
paixão-tendência da ação imoral
caridade oculta: quando não se entende
repouso de paz, além-carnal
Lealdade sagrada, força da profecia
condução à vida bem-aventurada
indiscrição sedativa da noite-dia
posse inevitável, frustrada
Finalidade principal da lei divina
semelhança com efeitos submersos
manual de poesia que ensina
rosas e prosas no verso
...
exaltantes olhos brilhantes
lábios cortantes e incertos
distraindo momentos-intantes
Essência central descentrada
unidade do universo-sentimento
necessidade de purificação travada
finito-infinito em momentos
Impulso irracional insatisfeito
necessidade tragicamente enganosa
finalidade fundamental de direito
fábula fascinante em prosa
Crítica irredutivelmente realista
alienação de desejos e esperanças
enigma da existência monoteísta
hierarquia-guia do homem-criança
Pleno, autêntico e carnal
redutor propositalmente ofuscado
direção especulativa anti-material
encontro sálvico consagrado
Perpectiva pessimista e conflitante
série de contradições inextricáveis
fraternidade universal intrigante
fecundidade de gerações implacáveis
Limitante da liberdade alheia
inesperança sem lógica e sujeição
impessoalidade celebrando ceia
ao bem, à beleza, doce-paixão
Ciência sem ciência, universo latente
paixão-tendência da ação imoral
caridade oculta: quando não se entende
repouso de paz, além-carnal
Lealdade sagrada, força da profecia
condução à vida bem-aventurada
indiscrição sedativa da noite-dia
posse inevitável, frustrada
Finalidade principal da lei divina
semelhança com efeitos submersos
manual de poesia que ensina
rosas e prosas no verso
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DÍVIDAS
Frisei as garras do ódio
joguei fora verdades
Apostei todos dados
sem saber os problemas
Tudo fez-se de conta:
fiz do medo ópio
joguei fora verdades
destilei-me à cortes
Apostei todos dados
vinguei soluções
sem saber os problemas
desfragmentei meus átomos
Tudo fez-se de conta:
e as contas todas foram pagas
...
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
VIDA DO EU
Mais um dia na vida do Eu:
um sonho assim nasceu
sem Ninguém desconfiar
mesmo Ninguém sendo Eu
Alguém foi alcançar
Sonhou assim como Eu
mas Ninguém quis acreditar
que Alguém assim como Eu
pudesse assim sonhar
Então, mais um sonho na vida do Eu
foi se realizar
Sem Ninguém atrapalhar
sem Alguém mal olhar
Do sonho que assim nasceu
só restará
Ninguém, Alguém
assim como Eu
DO MAR...
Mar imenso-aberto
ondas destino-coração
gosto sabor-mistério
sonho em mãos pegá-lo
--------------------------------
O mar é como se fosse proporcionalmente o inverso de um soro caseiro:
já possui a água com uma colher de sal,
esperando-nos como uma pitada de açucar.
---------------------------------
O mar
sete ondas numa vida
seio farto
mar
horizonte despedida
---------------------------------
Mar
pai-avô-filho
lembrança-rede-peixe
segredo-morte-vida
remédio-olho-alma
...
ondas destino-coração
gosto sabor-mistério
sonho em mãos pegá-lo
--------------------------------
O mar é como se fosse proporcionalmente o inverso de um soro caseiro:
já possui a água com uma colher de sal,
esperando-nos como uma pitada de açucar.
---------------------------------
O mar
sete ondas numa vida
seio farto
mar
horizonte despedida
---------------------------------
Mar
pai-avô-filho
lembrança-rede-peixe
segredo-morte-vida
remédio-olho-alma
...
A epilepsia de um tom qualquer
Mãos nas cordas
cordas vocais não falham
notas, passam, passam
suaves, agudas, estranhas
relaxo em si
espelho do sol
ardente sem dó
(enquanto isso)
eletrizam escamas dormentes
...
quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007
quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
OUSADIA
Brinde ao som das borboletas
pairando sobre a gravidade
estetizando céu adentro
desenhando o ar
desfrutando liberdade
E para os leigos:
Quem ousará dizer que foi lagarta?
terça-feira, 30 de janeiro de 2007
DA SAUDADE...
Saudade corta-lábios
beijos boca-tesão
cheiro mel-suor
desejo pecado-carne
************************
Saudade é o tempo
tempo que não passa
enquanto passa o tempo
************************
Saudade morta-mata
sentido vivo-viva
sentido morte-mata
saudade vide-vida
************************
Saudade
espinho crú de nervo e calo
pote d'água sem gargalo
Saudade
truque de carta fora do baralho
************************
Saudade
lembranças cristalinas
bomba sem efeito moral
ineficácia do poder
saudade
hino impossível de esquecer
segunda-feira, 29 de janeiro de 2007
GOTAS DE ORVALHO
O sol se revalida
ao céu pede carona
enquanto caem gotas de orvalho
sobre pés descalços
rachados pelo esforço diário
quando nada mais se encanta
sob a totalidade nada se distrai
me lembro quando criança
brincar de olhar o sol nascer
ao longo da mansidão
luz que irradiava
aquecia a alma
enquanto isso
caiam gotas de orvalho
sexta-feira, 26 de janeiro de 2007
TRANSE 3 (UM DIA, DEPOIS DA CRIAÇÃO)
Descendo ao paraíso
profundamente imaginário,
comi a maçã
arrotei Eva.
CAMUFLAGEM
Escalei o morro dos sonhos
procurando o paraíso
no primeiro dia
o pecado bateu à porta
entrou aos olhares primeiros
conspirou sob dermes e salivas
abusou do meu eu
Sussurrou pelos lábios dela
transpirando prazeres
E como fiel seguidor dionisíaco
não rejeitei-me ao acaso
bulinei-me corpo e mente
afoguei meu ego
demasiadamente afinei meu instinto
no mar vermelho da sedução
mergulhando entre libidos e ilusões
fascinando aparentemente minha razão
que se destruía com a metástase ardente
e assim foi
camuflando-se
entorpecendo-me com o gosto passional do desejo
segunda-feira, 22 de janeiro de 2007
REFLEXÃO - DESENCADEADO
Procuro não prender-me a um só estilo. Prefiro arriscar-me ao anticonvencionalismo, ao pacto com as idéias não-concebidas e aparentemente distantes. Acredito que o grande barato da poesia é ausentar-se de regras. É tão fácil copiar estilos ao invés de tentar criá-los, encontrar erros ao invés de tentar entendê-los, calar-se ao invés de arriscar-se, dificultar-se. Tão cômodo ter senso comum. O experimentar pode ser a chave para a inovação perceptiva, desencadeando uma abertura atemporal de qualquer estabilidade racional.
José Eduardo Calcinoni
OUTROS
Outro este? Porque não?
Se acaso fosse outro, igual não seria?
Se igual fosse outro, como explicaria?
Cópias? Outros como outros?
Mas se outros como outros:
A essência sobreviveria?
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
RESPOSTA
Essa fonte de idéias que gera a arte de escrever nem parece às vezes que é inesgotável. Os black-out's mentais ocorrem freqüentemente no cérebro poético. Há horas, dias, meses, que às vezes passam em vão. Mas será que realmente passam em vão? Muitas idéias precisam de um período mínimo de gestação, seja no inconsciente, ou seja, informações já escritas e armazenadas. Assim como as fétidas fezes de alguns animais se transformam em poderosos e incomparáveis adubos, as palavras precisam também de um período de curtimento. Digamos que, assim como uma planta, ela nasce semente, cresce, floresce e produz seus frutos - nem sempre bons. Tudo pode ser aproveitado de alguma forma para alguma coisa. O sentido só faz sentido se o buscarmos. Talvez a busca seja o próprio sentido, no sentido de que buscando nos desviamos por atalhos sensitivos que nos preparam em "banho-maria", temperando e desengenhando o estável e o improvável.
MAIS
Dizer
Mais do que se possa sentir
Sentir
Mais do que dizer palavras
Olhar
E nada ver
Ver
Além do que se possa olhar
Escrever
Algumas palavras assim
Assim
Mais do que dizê-las
ABANDONO
Abandono
falta de inspiração
más idéias
álcool, gordura e samba
desafino
incanções
Osso do Bagaço
abandono-me
quinta-feira, 11 de janeiro de 2007
JORNADA - PARTE 2 - CAMINHANDO
Já no mais puro desejo de navegar e naugrafar no oceano da trangressão racional, para que assim pudesse ultrapassar um obstáculo emblemático e tão antigo quanto o instinto de reprodução das espécies, eu progressei deixando as primeiras pegadas da minha jornada.
No primeiro altar que subi, pedi à Zaratustra um golpe de luz, que pudesse desencadear minhas mais leves reações e petrificar os sentimentos que poderiam vir à ser minha cruz.
Saindo da região totalmente devastada de idéias, esbarrei num objeto misterioso e reluzente. Era um medalhão dourado. Nele, estava escupido um símbolo e letras à qual não tive menor noção. Guardei-o no peito como se fosse um amuleto de proteção, pois passei a acreditar que assim o fosse.
Retirei das minha tralhas um velho livro, de orelhas grandes, empoeirado, e, o abri de forma simples, na mais subjetiva intenção, prevendo que aquilo seria uma pista para meu próximo passo.
Então, na linearidade - justo aquela que nunca quis - do pensamento momentâneo, joguei o amuleto num lago de percepções reais, mas inexistentes. Deixei fluir somente oxigênio em meu corpo, meditando por alguns minutos, e aceitando mais uma vez meu estado imprevisível de decisão.
No primeiro altar que subi, pedi à Zaratustra um golpe de luz, que pudesse desencadear minhas mais leves reações e petrificar os sentimentos que poderiam vir à ser minha cruz.
Saindo da região totalmente devastada de idéias, esbarrei num objeto misterioso e reluzente. Era um medalhão dourado. Nele, estava escupido um símbolo e letras à qual não tive menor noção. Guardei-o no peito como se fosse um amuleto de proteção, pois passei a acreditar que assim o fosse.
Retirei das minha tralhas um velho livro, de orelhas grandes, empoeirado, e, o abri de forma simples, na mais subjetiva intenção, prevendo que aquilo seria uma pista para meu próximo passo.
Então, na linearidade - justo aquela que nunca quis - do pensamento momentâneo, joguei o amuleto num lago de percepções reais, mas inexistentes. Deixei fluir somente oxigênio em meu corpo, meditando por alguns minutos, e aceitando mais uma vez meu estado imprevisível de decisão.
JORNADA - PARTE 1 - O COMEÇO
Meu golpe começou a instalar-se com um Distúrbio Bipolar de Animo, e conseqüentemente, acabou levando-me ao óbito do décimo sexto sentido que desenvolveria.
O que poderia agora um Cavalheiro de Verona como eu tentar desfrutar da própria ânsia de escrever elevando apenas o ato de que não decriptei meus rotores cerebrais?
Enquanto todos lá ficaram rodeados de mosaicos, tentando a purificação, eu acreditava [ainda que muito pouco], que o auxílio psicoterápico dos monoteístas, não efetuaria na própria distinção das confrarias dos Nagôs e Yorubas.
Saí em busca do visionário acrônico, que o chamavam de Pentateuco, onde agrega respostas para algumas interrogações crônicas de minha constante jornada.
Todas as pistas que deveriam levar-me ao êxito, me alertaram que o começo seria tão díficil e tão requisitado quanto o meio e fim [se é que assim posso reparti-lo].
No sopé do monte Horebe, logo após o lago de sangue [ou groselha se assim melhorar], recebi apenas mais uma de minhas rotineiras visões que não me esclareciam absolutamente nada.
O que poderia agora um Cavalheiro de Verona como eu tentar desfrutar da própria ânsia de escrever elevando apenas o ato de que não decriptei meus rotores cerebrais?
Enquanto todos lá ficaram rodeados de mosaicos, tentando a purificação, eu acreditava [ainda que muito pouco], que o auxílio psicoterápico dos monoteístas, não efetuaria na própria distinção das confrarias dos Nagôs e Yorubas.
Saí em busca do visionário acrônico, que o chamavam de Pentateuco, onde agrega respostas para algumas interrogações crônicas de minha constante jornada.
Todas as pistas que deveriam levar-me ao êxito, me alertaram que o começo seria tão díficil e tão requisitado quanto o meio e fim [se é que assim posso reparti-lo].
No sopé do monte Horebe, logo após o lago de sangue [ou groselha se assim melhorar], recebi apenas mais uma de minhas rotineiras visões que não me esclareciam absolutamente nada.
terça-feira, 9 de janeiro de 2007
REFLEXO SÃO – BOSQUES-LOUCURA-ECO
A loucura é a profundidade abaixo da razão. A razão é a superfície de um lago-idéias-pensamento, que ultrapassada eleva a pressão-ágil-criação, nos libertando da decadência-moral-legal. É o pólen que origina o mel-instinto-inconsciência.
ANSEIO SISTEMÁTICO
Entre intrépidos sabores, o mais distante é o que sinto. Distante no sentido do normal. Normal que é o próximo do que somos — ou do que achamos ser, ou querem que sejamos. Seres impecáveis, implacáveis. Tolos sós. Sentindo a todo instante o sabor do pecado. Se é pecado original ou não? Não sei! O que importa é que nos liberta de um abismo sórdido e moribundo, rodeado de censos-comuns, papais-mamães, e, resultantes da simétrica razão. O sabor provém das misturas-sistêmicas — no amplo sentido da união substancial, porém, conservando suas propriedades específicas, resultando uma diversidade minimamente alcançada, onde o minimamente seja cada vez mais distante.
FLOR-HORMÔNIO
Caiu noite-tensa
Temeu medo-amante
Amou flor-primeira
Floriu essências-poucas
Subiu teto-céu
Serviu corpo-mente
Mentiu instinto-carne
Instituiu sintético-prazer
Desintegrou bruta-matéria
Bravejou presa-dentes
Preveu ferormônio-calor
Morreu gozo-primeiro
UIVOS
Passei pela rua dos prazeres
Roubei da donzela um convencional beijo
Cruzei a ruela afogado de salivas
Li Vatsyayana,
Atingi ao Artha, Dharma e o Kama
Joguei no lixo a imperfeição
Matei todas minhas ânsias
MATA-VIRGEM-MATO
Não me mato de saudade
Mato-me no mato
Mato, saudade mata
Mata-virgem, mata-saudade
Saudade-morta, virgem-mato
Mata no mato-virgem saudade
Saudade de mato-não-mata
Virgem não mata saudade
Mato-me no mato
Mato, saudade mata
Mata-virgem, mata-saudade
Saudade-morta, virgem-mato
Mata no mato-virgem saudade
Saudade de mato-não-mata
Virgem não mata saudade
quarta-feira, 3 de janeiro de 2007
TOLICE
O abismo das imaginárias e absurdas tolices
Desperta sedentamente o vinho do prazer
Embriaga ao ritmo obsessivo do acaso
Desconserta o caminho restrito de algumas palavras
Abandona o medo convencional crônico
Desobstrui as vias, veias e velhas manias
Mostra um caminho distante apenas da razão
Próximo de um lugar onde inconscientemente desejamos estar
quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
ESPAÇO DRUMMONDIANO
O que muda na mudança
se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança
junto ao que nunca se alcança?
se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança
junto ao que nunca se alcança?
LENDA QUE VIROU LENHA OU LENHA QUE VIROU LENDA?
Lá, daquela árvore
que caiu a casca
soltou a tinta
que pintou o pano
tingiu a rede
Lá, daquela árvore
que virou lenha
INCERTO
Orgasmo direto do sujeito composto
sentido no vácuo do pretérito perfeito
ouvido na imperfeição
do verbo intransitivo direto
Esquecido pelo sujeito simples
lembrado pelo superlativo oculto
absoluto num só instante
não é démodé nem moderno
Modernidade escrota entravada teoricamente
reduzida ao ninho na tocaia do vazio
reduto acéfalo bulinado
pela proeza do que se diz esperto
Artifício do provérbio babilônico naufragado
masturbado na massa cinzenta diluída
inutilidade contrária
ao raciocínio sequelado e incerto
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
quarta-feira, 6 de dezembro de 2006
BAGAÇO
Que vida é essa?
Quanto poder de nada poder?
Carona com a solidão
Destino aberto
Bagaço de idéias furtas
Vida, vida, amada vida
Ama-me e não traia-me
PACTO
Descabido pensamento
Inconstante pecado
Rodeia-me com fogo
Trata-me como escravo
Concede-me ao jogo
Sublime pacto
corpo e mente
NÃO DEIXE EM VÃO
Tanto tempo longe
Tampouco para estar lá
Tão perto sempre
Parece não estar
Tempos longos e distantes
Tempos sem se achar
Às vezes o instante de agora
O melhor tempo
Como se fosse inevitável
Único, descobrir
Não o faça amanhã
Hoje, não deixe em vão
Tampouco para estar lá
Tão perto sempre
Parece não estar
Tempos longos e distantes
Tempos sem se achar
Às vezes o instante de agora
O melhor tempo
Como se fosse inevitável
Único, descobrir
Não o faça amanhã
Hoje, não deixe em vão
COGUMELO PLATÔNICO
Mas afinal o que é o amor?
Um tema filosófico, teológico, artístico, místico?
O escrevemos, pensamos, falamos, sentimos?
Um tema filosófico, teológico, artístico, místico?
O escrevemos, pensamos, falamos, sentimos?
Alguns pensadores consideram o amor como uma dimensão exclusivamente humana. Outros vão mais além utilizando determinação do divino como fundamentação, principalmente do seu lado dito positivo — relacionado ao amor de Deus e a sua importância para alcançar a salvação.
Platão foi o primeiro pensador ocidental capaz de elaborar uma reflexão específica e ampla sobre o assunto — que até hoje é inevitável termo de referência.
Em sua concepção o amor é uma força grande e poderosa que se caracteriza no impulso que se dá ao ser humano sinceramente sedento de sabedoria, e por isso dócil a tal impulso, a fim de superar as baixezas da vida material e da experiência sensível para elevar-se rumo às alturas do mundo ideal situado além do mundo físico, onde, segundo Platão, residem a Beleza, a Verdade e o Bem na sua pureza perfeição.
Para Platão o amor significa a disposição para elevar-se em busca do que é eterno, perfeito e imutável. Neste sentido o “amor platônico” revela a sua natureza essencialmente filosófica. Esse amor lança uma ponte entre o universo sensível e o universo puramente inteligível, entre o universo corpóreo e o espiritual, entre o relativo e o absoluto, entre o contingente e o necessário, entre o particular e o universal.
Sendo assim, a condição humana é caracterizada por uma espécie de escravidão da alma em relação ao corpo. O amor, porém, poderá ajudar a alma a reconquistar a sua posição primitiva e originária, contanto que as paixões não ofusquem demasiadamente seu lado positivo, isto é, um lado que, ao contrário, é justamente capaz de exaltar sobremaneira, possibilitando de fato a reunificação da alma com a trancedência.
Se o amor é somente um assunto relacionado à especulação teológica, não sei. Sei que todos os filósofos direcionam atenção especial. Sei que movimenta nossas mais diversas espectativas.
“O amor Platônico é cogumelo:
nasce, cresce,
suas propriedades criam pontes entre universos”
terça-feira, 28 de novembro de 2006
CONJUGANDO
Verbo 1
Eu mando
Tu mandas
Ele manda
Nós mandamos
Vós mandais
Eles obedecem
Verbo 2
Eu mando
Tu mandas
Ele obedece
Nós mandamos
Vós mandais
Eles obedecem
Verbo 3
Eu mando
Tu obedeces
Ele olha
Nós mandamos
Vós obedeceis
Eles olham
Verbo 4
Eu não obedeço
Mas tu não mandas
Ele apenas olha
Nós não obedecemos
Mas vós mandais
Eles nem mais olham
Ninguém faz porra nenhuma
Eu mando
Tu mandas
Ele manda
Nós mandamos
Vós mandais
Eles obedecem
Verbo 2
Eu mando
Tu mandas
Ele obedece
Nós mandamos
Vós mandais
Eles obedecem
Verbo 3
Eu mando
Tu obedeces
Ele olha
Nós mandamos
Vós obedeceis
Eles olham
Verbo 4
Eu não obedeço
Mas tu não mandas
Ele apenas olha
Nós não obedecemos
Mas vós mandais
Eles nem mais olham
Ninguém faz porra nenhuma
EXUBERÂNCIA
Só os loucos caminhos retratam
Uma exuberante forma abstrata
Distintas palavras várias
Impondo situação precária
Paixão pela forma inexistente
Reluzindo a mente como espelho
Enxergando o que se sente, apenas,
Evitando o que está a frente
segunda-feira, 27 de novembro de 2006
ESTRANHO - 1
Ele olhou-a com olhos ímpetos de malícia. Ela passou e evitou-o friamente. Ele, no impulso irracional do fervor, alcançou-a e atirou pétalas e versos poéticos da mais pura inspiração. Conquistou-a. Então, fechou os ímpetos olhos, e pôs em prática suas malícias.
terça-feira, 21 de novembro de 2006
APENAS AQUILO QUE PODE SER MAIS
Sobre a areia
energizo-me
disparo pensamentos imaculados de razão
jardim sem borboletas
flores falsas
terra pobre
piso na areia que não existe
não tem passo nem leveza
apenas energia
que fantasia pensamentos
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