segunda-feira, 11 de julho de 2011

Os astros do céu e da terra

Em julho de 1969, numa transmissão ao vivo para todo planeta, o primeiro homem pisava na lua. Entre comemorações americanizadas, há contestações, dúvidas sobre a veracidade do fato e, para alguns, indícios conspiratórios para aquilo que poderia ser considerada a fraude do século passado. A presença humana na lua, se verdade ou não, destacou um marco no alcance da ciência.


Divindade para muitas civilizações que por aqui passaram, a lua é vista por alguns como um símbolo feminino associado à fecundidade, à fragilidade, à ilusão, pureza e inconstância, pelo fato de estar sempre mudando de fases.

Considerada como nosso satélite natural, a lua exerce influência sobre as águas, provocando as marés. Como plantas, animais e pessoas em sua composição possuem uma porcentagem alta de água, acredita-se que também sofram influência lunar. Em consequência disso, também tem ação nos hábitos dos homens, que refletem claramente em suas atividades, destacando a agricultura como uma das principais.

No sétimo mês do ano também comemoramos o Dia do Agricultor, outra figura celeste e responsável pela fecundidade da terra, através da produção de alimentos que são consumidos por uma população exorbitante. Essa profissão exige uma condição de trabalho pesado, apesar de toda mecanização disponível.


A cultura dos povos primitivos ainda se acentua na modernidade. A escolha de determinadas fases da lua para plantio, colheita e poda, ocorre normalmente em várias partes do mundo, independente dos estudos científicos. Além de nos cercar de mistérios e nos atrair com sua beleza, a lua fomenta uma considerável relação de fé com as pessoas.

O agricultor, assim como a lua, cada um na sua condição, são dois astros, categoricamente indispensáveis e responsáveis diretamente pela manutenção da vida.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sempre lembre se for poeta:

bom humilde ser

salto alto tamanco cai pé e torce ego
Caminhos, estradas, atalhos

........................Lugares em algum lugar

......................................B   ú    s    s    o    l    a    ?

......................................................Quantas milhas náuticas?

.......................................................................Qual profundidade?

........... A
...............(L)
....................T
........................I
...........................T
..............................U
..................................D
......................................E

Sonhos não precisam de precisão!


"Um mapa
..............do mundo
........................que não inclua utopia,
....................................................nem vale a pena olhar" (O.W)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A ARTE DO BONSAI

Como não existem documentos que comprovem como e quando exatamente surgiu o bonsai, há muitas histórias diferentes que descrevem a origem. No entanto, é possível citar pontos em comum entre elas. Segundo as diversas versões, os primeiros bonsai foram cultivados no china há milhares de anos atrás.




A história mais aceita entre os cultivadores do mundo todo, é a de que há milhares de anos, na China, os homens mais ricos e cultos saiam das cidades, buscando maior contato com a natureza. O intuito era seguir para as montanhas e lá contemplar todos os fenômenos naturais, tudo isso visando atingir a harmonia e a tranquilidade do espírito.



Em meio às matas, esses chineses encontravam muitas espécies de árvores de tamanho menor. Eles as chamavam de árvores-anãs. As formas em miniatura, fascinaram tanto, que começaram a retirá-las das florestas e cultivá-las em vasos.



Inicialmente, as árvores em miniatura eram mantidas como eram encontradas, sendo apenas transplantadas para vasos. No entanto, com o tempo, foram surgindo, de forma gradual e lenta, técnicas que visavam aprimorar o formato dos pequenos exemplares.



Essas miniaturas passaram a ser chamadas pun sai. Muitos acreditavam que os chineses, os quais deram início ao que seriam os primeiros bonsai, não eram apenas ricos, mas estavam relacionados diretamente a religião. firmam que se tratavam de monges taoístas, que admiravam essas pequenas árvores, devido aos seus sinais de velhice e de luta pela sobrevivência contra as adversidades da natureza.



Saido da China



Como isso, desmitifica-se a idéia de que o bonsai foi originado no Japão. Os chineses foram os responsáveis pela miniaturização de árvores em vasos. Eles acreditavam que eram um vínculo entre o céu e a terra, algo que estimulava a meditação.



Levados pelos monges chineses, a arte chegou ao Japão, na Era Kamakura, que compreende o período entre 1192 d.c. e 1333 d.c. Lá a prática foi modificada, desvinculada da religião e tornou-se uma arte. Os japoneses passaram a ver o bonsai como uma expressão do homem, interpretando a natureza e, então, procurando recriar suas formas com a maior perfeição possível. Inicialmente, era uma prática da aristocracia, mas com o tempo, se dissiminou.



Contam que, já em 1664, um funcionário do estado chinês se mudou para Japão, onde passou a se dedicar ao bonsai. A partir do conhecimentos transmitidos por esse mestre, os japoneses desenvolveram as técnicas de cultivo e criaram os estilos básicos.



O bonsai chegou ao Ocidente, muitos anos depois, no século 18, ingleses retornaram do território japonês, espantados com as pequenas árvores cultivadas em vasos, que produziam e se assemelhavam das encontradas na natureza.



A notícia se espalhou pela Europa.Em 1914, aconteceu a primeira exposição nacional de bonsai no Japão. Dizem que alguns exemplares expostos, estão vivos até hoje. E 20 anos depois, o Museu Metropolitano de Arte de Tóquio, instituiu a exposição como sendo anual e ela é realizada até hoje, a Kokufu Bonsai Ten.



No Brasil



As primeiras histórias relacionadas a arte do bonsai, são de 1908, com a chegada dos primeiros imigrantes japoneses. Acredita-se que eles trouxeram pertences que lembrassem a sua terra, entre eles alguns exemplares de bonsai.



No entanto, de acordo com Chuji Takeguma, autor do artigo "História do Bonsai no Brasil", publicado em 1938 e divulgado até hoje pela Associação da Tradição Oriental, da cidade de Curitiba-PR, a prática no Brasil, não começou exatamente na chegada dos imigrantes.



Takeguma conta que muitos conhecedores e admiradores da arte, desembarcaram em terras brasilieiras, entre eles o monge budista Tomojiro Ikaragui. Ele teria trazido o tronco de uma amoreira, o que poderia ter sido o primeiro bonsai introduzido no País, se a alfândega brasileira não o tivesse confiscado.



Vindos para trabalhar nas lavouras de café, os imigrantes japoneses se dedicavam basicamente ao cultivo agrícola, sendo esse um outro motivo que teria atrasado o início da arte no Brasil. Apenas na década de 30, com estabilidade financeira, alguns imigrantes iniciaram o cultivo de exemplares de bonsai.



A partir de Guaiçara, município do interior do Estado de São Paulo, essa arte de disseminou pelo país. Os cultivadores pioneiros, como Noriyasu Seto, dessa mesma cidade, adotaram espécies orientais como juníperos e ácer, e fizeram diversas experiências para aclimatização dessas plantas estrangeiras, cujas sementes foram trazidas do Japão.



Mesmo tendo acesso as espécies orientais, houve um imenso interesse em adotar plantas nativas no cultivo do bonsai. Ainda de acordo com Chuji Takeguma, o Sr. Tyotaro Matsui, imigrante, localizado na cidade de Gauimbê, interior de SP, cultivou o primeiro bonsai de espécie nativa, no início da década de 30. O bonsai se tratava de uma Primavera (bougainvillea spp), que atraiu cultivadores japoneses pela fato de sua imensa floração.



Essa é uma das histórias sobre a arte do bonsai, como dito no começo do texto, não existem documentos que comprovem sua origem, cada site, cada livro tem a sua história.

fonte: Guia - Como Cultivar Bonsai, ed. casa dois

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Zamba Para No Morir (Hernan Figueroa Reyes)



Romperá la tarde mi voz


Hasta el eco de ayer.

Voy quedandome solo al final

Muerto de sed, harto de andar.

Pero sigo creciendo en el sol,

Vivo.



Era el tiempo viejo la flor,

La madera frutal.

Luego el hacha se puso a golpear,

Verse caer, solo rodar.

Pero el árbol reverdecerá

Nuevo.



Al quemarse en el cielo

La luz del día, me voy

Con el cuero asombrado me iré

Ronco al gritar que volveré

Repartido en el aire a cantar

Siempre.



Mi razón no pide piedad

Se dispone a partir.

No me asusta la muerte ritual

Solo dormir, verme borrar.

Una historia me recordará

Vivo.



Veo el campo, el fruto, la miel

Y estas ganas de amar.

No me puede el olvido vencer

Hoy como ayer siempre llegar.

En el hijo se puede volver

Nuevo.



Al quemarse en el cielo...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Mais uma do mesmo - Leminski

nada tão comum


              que não possa chamá-lo

meu



nada tão meu

               que não possa dizê-lo

nosso



nada tão mole

               que não possa dizê-lo

osso (do bagaço)



nada tão duro

             que não possa dizer

posso

Cultive um pulmão no seu jardim


Dia 23 de setembro inicia a primavera no hemisfério sul. É o início de uma fase de renovação. A natureza passa a reativar suas cores e ofuscar seu brilho.

No dia 21 é comemorado o dia da Árvore.

Na escola, nos primeiros anos de minha educação alfabetizada, nessa época, ganhávamos uma mudinha para levar e plantar em casa. Era um misto de espécies nativas: aroeira, embaúba, pitangueira, ameixeira, goiabeira, cerejeira, etc. Cada aluno pegava uma, sortida. Todas elas, depois de plantadas e desenvolvidas, deram sua contribuição como elemento de manutenção da vida. Estabeleceram as trocas gasosas para nos possibilitar o oxigênio, ajudaram na infiltração da água no solo, na diminuição da erosão, serviram de abrigo, tanto para o sol quanto para a chuva, deixaram o ambiente mais fresco e confortável, além de servirem de casa e produzir alimentos para milhares de animais, insetos, outras plantas e microorganismos essenciais para a continuidade do ciclo biológico no planeta.

Plantar uma árvore significa um pouco de tudo isso. Você pode dar uma pegada mais poética, desenhar, escrever, declamar, encontrar qualquer outro sentido. O fato é que ela agrega tudo isso. Possibilita essa harmonia. Parece tão lógico. A importância que descrevo, talvez, nem fosse a ideia dos professores, na época. E talvez, o que importa nem tenha sido o sentido da comemoração em si. Sei que, desde ali, comecei a plantar um pedaço do meu pulmão, mesmo sem sequer ainda ter perdido um pedaço dele. Sem querer ajudei a recompensar um pouco da parte que também ajudei a destruir. E quando falamos de pulmão, falamos em respirar. Em sobreviver. Pulmão é autonomia. Como sobreviver?

Calma, isso é apenas conseqüência de tudo que consumimos. E não se preocupe, não estamos sós. Muitos, em tantos lugares, já também não possuem os pulmões. Já os consumiram. Outros, nem tem noção da perda.  Enquanto o ar ainda sobra e os pulmões ainda refrescam e aliviam o peito, continuo, apesar de tudo, praticando o auto-canibalismo. E o pior é que, até hoje, desde a época da escola, quase não tenho reposto os pedaços do pulmão que consumo.

Assim, mais uma vez, no mês de setembro me lembro de tentar buscar uma definição mais adequada para a palavra “Independência”.


(Publicada na Revista Premier - Setembro 2010)
http://www.revistapremier.com.br/site/Post/Post.aspx?id=1378

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

"Um homem passa a valer quando começa a entender e compreender a terra em que pisa". (autor desconhecido)

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TIEMPO DEL HOMBRE - ATAHUALPA YUPANQUI

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La partícula cósmica que navega en mi sangre

es un mundo infinito de fuerzas siderales.

Vino a mí tras un largo camino de milenios

cuando, tal vez, fui arena para los pies del aire.

Luego fui la madera. Raíz desesperada.

Hundida en el silencio de un desierto sin agua.

Después fui caracol quién sabe dónde.

Y los mares me dieron su primera palabra.

Después la forma humana desplegó sobre el mundo

la universal bandera del músculo y la lágrima.

Y creció la blasfemia sobre la vieja tierra.

Y el azafrán, y el tilo, la copla y la plegaria.

Entonces vine a América para nacer en Hombre.

Y en mi junté la pampa, la selva y la montaña.

Si un abuelo llanero galopó hasta mi cuna,

otro me dijo historias en su flauta de caña.

Yo no estudio las cosas ni pretendo entenderlas.

Las reconozco, es cierto, pues antes viví en ellas.

Converso con las hojas en medio de los montes

y me dan sus mensajes las raíces secretas.

Y así voy por el mundo, sin edad ni destino.

Al amparo de un Cosmos que camina conmigo.

Amo la luz, y el río, y el silencio, y la estrella.

Y florezco en guitarras porque fui la madera.


 
 

O sistema/1 (Eduardo Galeano - Livro dos Abraços)

Os funcionários não funcionam.
Os políticos falam mas não dizem.
Os votantes votam mas não escolhem.
Os meios de informação desinformam.
Os centros de ensino ensinam a ignorar.
Os juizes condenam as vítimas.
Os militares estão em guerra contra seus compatriotas.
Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.
As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
As pessoas estão a serviço das coisas.


                                                  ...

A função da arte/2 (Eduardo Galeano - Livro dos Abraços)

O pastor Miguel Brun me contou que há alguns anos esteve com os índios do Chaco paraguaio. Ele formava parte de uma missão evangelizadora. Os missionários visitaram um cacique que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto e calado, escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram esperando.
O cacique levou um tempo. Depois, opinou:
— Você coça. E coça bastante, e coça muito bem. E sentenciou:
— Mas onde você coça não coça.

A função da arte/1 (Eduardo Galeano - Livro dos Abraços)

A função da arte/1


Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!


                                         ...


sexta-feira, 30 de julho de 2010

...


"Navigare necesse; vivere non est necesse".


...

***

...

A antítese do novo e do obsoleto


O amor e a paz, o ódio e a carnificina

O que o homem ama e que o homem abomina

Tudo convém para o homem ser completo.


(Augusto dos Anjos)

terça-feira, 27 de julho de 2010

...

"Tupi or not tupi, that is the question."


(O.A)

Sobre o sentido

O sentido, acho, é a entidade mais misteriosa do universo.


Relação, não coisa, entre a consciência, a vivência e as coisas e os eventos.

O sentido dos gestos. O sentido dos produtos. O sentido do ato de existir.

Me recuso a viver num mundo sem sentido.

Pois isso é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação.

Só buscar o sentido faz, realmente, sentido.

Tirando isso, não tem sentido.

(Paulo Leminski)

A VERDADE DO POETA

Quando um poeta diz à uma mulher que a ama,


Quase sempre está dizendo uma verdade,

Os poetas não mentem, e sabem que o amor é chama,

E amam intensamente, mas com uma dose de leviandade.



Dirás então que o poeta é sempre um leviano,

Mas tu erras em teu precipitado julgamento,

O poeta é um pouco mais que um ser humano,

Algo de divino está presente em seu pensamento.



Que mal há em amar então muitas mulheres

Se para isso é que elas foram feitas;

Mulheres são como flores, para serem colhidas,

Admiradas, cheiradas, serem belas e perfeitas.



Não há traição, portanto, nas intenções de um poeta,

Muitos de seus amores não passam de um sonho.

É que amar a beleza da mulher é sua grande meta,

E eu ponho minha mão no fogo por isso, juro que ponho.



A mulher que tiver um marido poeta, amante ou namorado,

Sem dúvida será uma mulher extremamente amada;

Pois o poeta entrega sua alma quando se diz apaixonado,

Entrega-se tanto a ela que nunca lhe faltará nada.



Mas se as mulheres forem daquelas que de tão ciumentas,

São capazes de exigirem mais atenção e exclusividade,

O poeta sente-se como se estivesse ardendo entre pimentas,

E desiste daquele amor e parte sem sentir saudade.



Não se zanguem, portanto, mulheres de minha vida;

Aceitem esta leviandade romântica e apaixonada,

Pois estarão mais seguras, amadas do que perdidas,

E é muito melhor ter só uma parte do que não ter nada.


(Ivan Jubert Guimarães)

...

Sou poeta. Realista. Real como sou, mas não como sou poeta. Agressivo e meio estranho. Talvez normal - pouca pinta de mal. Simples. Na simplicidade que penso. Ilusionista. Um pouco rouco. Leio gibi e revista, um pouco. Amargo. Ouro e escarro. Poeta? Que sarro! Um caminho atrás. Já ouviu falar de amor? Ouvirás. Precoce. Transpiro e inspiro. Espirro e tosse. Na droga do pensamento. Careta. O que vale pode ser momento. E desse, apenas meio. Inteiro? Devaneio. O que vejo é o que veem. Não enxergam? Creem? E agora o que faço? Nada. Estilhaço. Não me lembro. Penso, logo existo. Ou existo porque penso? Esse caminho é uma jogada pouco estranha. Fácil. Se não se acerta, arranha.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Nem sempre mudam as estradas
(De repente, a forma de se caminhar nelas?)

É preciso observar, sentir, sonhar, seguir...
Criar o que para muitos sempre esteve pronto.

(Destino?)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

1/2 - 1/2 - 1/2

Eu procuro alguém que na vida me satisfaça

A metade da metade da metade
dos meus sonhos

A metade da metade da metade
dos meus desejos

A metade da metade da metade
dos meus prazeres

A metade da metade da metade deles.



E mesmo assim, com minha procura,
não me satisfaço só com metades.
(Assim, sempre busco outras metades)

Mas elas só serão metades das metades das metades...
(Somente metades)

Com isso, acabo me dividindo sempre em mais metades

sexta-feira, 9 de julho de 2010

SEGREDO (Carlos Drummond de Andrade)

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.


Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.


Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.


Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.



quinta-feira, 30 de julho de 2009

CURTAS 4,5,6..

...dera eu, fosse o mar,

e navegar pelos pormenos do seu léxico líquido.

PEQUENEZ

E fostes tão algoz,
agora, porém,
não és o mesmo de outrora.

E fostes além dos riscos
agora, porém,
estagnas num árduo conforto.

E fostes tão instável,
agora, porém,
ancora num lago sem beiras.

E fostes tão quase,
agora, porém,
pensas que um dia fora.

E fostes tão por fora,
agora, porém,
estás mais dentro do que nunca.

E fostes tanto,
agora, porém,
tens a certeza de ser pouco.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Curtas 1,2,3...

Morro,
sobrevivo a alma.
Alma?

...(Aquela mesmo, de quando tentava ser poeta)

Música

Na minha casa não há bandeiras
não há fronteiras
nem escuridão

Eu me abri
entreguei meu coração
você sorriu, disse não

Nada disso faz sentido
nada me faz sentir
Nada disso faz sentido
sem ter tido

"Querer o meu não é roubar o seu
pois o que eu quero é somente,
simplesmente em razão do 'EU'"

Há somente uma luz
uma força que me guia
a caminho do que não sei

Há somente poesias ingratas
encarnadas pelo ego do "EU"

terça-feira, 19 de maio de 2009

Trechos do livro CATATAU, de Leminski, publicado em 1975.


"Que flecha é aquela no calcanhar daquilo? Picatacapau! Pela pena é persa, pela precisão do tiro — um mestre. Ora os mestres persas são sempre velhos. E mestre, persa e velho só pode ser Artaxerxes ou um irmão, ou um amigo, ou discípulo ou então simplesmente alguém que passava e atirou por despautério num momento gaudério de distração. Flecha se atira em movimento, ninguém está parado. Nem o cavalo, nem o cavaleiro; nem a mente, nem a mão; nem o arco, nem a flecha, e o alvo o vento leva: tiro certo. Dentiscalpium in oculo. Todo teu lado direito puxa a linha, todo o esquerdo segura a flecha. Spes! Tiro feito, volta-se à unidade perdida. Mas arcos atrás isso não é coisa que se diga, que se faça, arqueiro pouco diz. Cala-se, de hábito, porque ignora tudo na arte em que é exímio. Depois, velhos não são dados a festas. Lísbia sabatária — bazanz! Sabazii sabaia! Copaplena! Muito sabe, pouco ri. Enquanto muitos riem, os mestres a portas fechadas meditam sobre a guerra. O primeiro gole de vinho melhora o tiro, o segundo gole — só Zenão! Assim como o primeiro tiro aprimemora o segundo tiro, a segunda flecha corrige a receita. Eclipse entra no sol em frente duma flecha persa, o sol pára e Xerxes o preenche a flechas. Como viver à luz de flechas? Da arte — não se vive; ver flor, calar. E calando a boca, de assunto mudo, vamos falar de flechas persas. O assunto me muda. O silêncio, próprio de alunos, instrui. Mas só os mestres sabem calar dizendo tudo. Tudo é ainda pouco. Na gata! Acertou na gata, paragate, parassangate! Tudo não tem detalhes. Na arte, detalhe é tudo, todo cuidado é pouco em se tratando dos mínimos detalhes que lhe derem na telha. Veja um mestre, por exemplo; como se move, como se levanta, como sabe fazer bem as coisas que todo mundo sabe. Mas há mestres e mestres. Nem todo mestre é próspero. Alguns cultivam artes sutilíssimas. Esses, às vezes, não têm apóstolos. São os últimos pioneiros. Livro não adianta. O dedo do mestre é sempre mais que o centro aonde aponta, ou não então? A cara dos mestres é o modelo das máscaras. Que cara alguém terá para erguer a máscara que jaz sobre a cara dos mestres? Tem uma palavra muito boa para dizer isso mas os mestres não ensinam a falar, só a fazer. O que se pode dizer da arte nada tem que ver com ela. O mestre é onde a arte já morreu: por isso, mestres não lutam. Sempre há coisas que aprender: um pequeno truque, um meneio mais rápido, um trejeito gaiato, um grito junto. O que os mestres sabem é o que há para aprender."

°°°

"A sombra traz um vento soprando o lume só para ver a que mundo este se resume. Mina e tresmina, por ventura, se for, pendura: já pensou o que é o bandido na história do gênero humano? O desqualificado atrás dos matos, esperando passar o produtor, e preda-o! Salpicado de súplicas, venham e envelheçam vindo: me castisalfo com pouco, — trinca e destrincha, pierre catrinta! Quem depois de assaltado, roubado e rapto, tendo perdido o senso da propriedade junto com seus pertences, segue seus captores e acaba tetrarca da quadrilha! Quando eu mais contava em ficar louco, fiquei apenas tonto, o que está para o pretendido assim como o pretendente está para a pretensão! Constrangido, quem me constrange? Constrangem-me alfângelos e quimelanges! Acenda essa cozinha, bota a ferver, ferviture-te, salutão! Não foi nada, todos compreenderão: nada sem certa luz que me miliúnica no apagar da vela — aos olhos deslumbra, ofusca, embacia, envesga, cega e vaza. Houve quem dissesse, aqui jaza como se estivesse em sua própria casa, tentando a ferro e fogo passar despercebido por meu ímã e águas, ora, onde é que nós estamos que já não reconhecemos os desconhecidos? Quer ter a bondade de martirizar essa santa ignorância? Levantar o dedo, é só não estarem olhando. Um odor, um abano asmático, um aceno espasmódico, um sínodo sistemático, ou então um som, ou senão for um reflexo, fiquei sem ter o que dizer, na surdina da oitiva, na pior das hipóteses! Quando não dá pé, pergunto: tão raso o quanto antes passei? Escantilhado em conheceiras, convosco quisera cruzadas serenimonhas em outras desencurtilheiras! Um acorde discrepante, um prenhilunho: combates são biscates, destaque os banquetes! O homem idôneo, no momento quandâneo, no lugar ubíquo: lautas mãos pilantras, incólumes na calamidade. Uma cabeçada no pé, uma mancada na palma da mão, uma cotovelada virando o coxo do cachorro magro, uma olhada atravessada, uma pedagógica no meio do pontapeito, amanhã, ao cantar o galo, sem saber de que lado, venham! Me arrependiam os cabelos, perde o pêlo no medo onde se pela, interpelanca: lã costeando, lá se dói tosqueado! Não fale mal de boca cheia, do prato cheio — não vire o ninho da galinha choca, dobre a língua e brade a vagina a seu bom bradar: meteu o braço na cumbuca, a cabeça a quem lhe caiba a arapuca; a perna me coxeia, percebo cancelas naquelas canceiras canelas. Num ouvido, escrito: . ENTRADA, noutro ouvido, escrito: SAÍDA — em cada rasto, a estampa de seu rosto para espanto de todo um outro resto! "

ººº

quarta-feira, 13 de maio de 2009

CURTAS ººº

Amanhã é outro dia
depois de amanhã outro
de repente, outros dias virão.

°°º ººº ººº ººº

Hoje sonhei estranho.
Tão sujo sonho.
Só restou-me um banho.

°°º ººº ººº ººº

O mar caminha pela areia
Vago na praia a procura:
Conchas, lâmpadas, sereias...

°°º ººº ººº ººº

Minha maior irresponsabilidade
Foi um dia acreditar
nessa tal responsabilidade.

°°º ººº ººº ººº

De onde todo encanto?
Promessas de amores?
Milagre de algum santo?

°°º ººº ººº ººº

Nadou, nadou,
Nada!
Afundou.

°°º ººº ººº ººº

Tudo ficou em paz.
Lendo um poema raso,
morri uma noite atrás.

°°º ººº ººº ººº

Nada foi tão quanto
Quanto foi tão nada
Quanto nada! Quanto?

°°º ººº ººº ººº

Dor elegante.
Tão dolorida que dói,
elegantemente todo instante.

°°º

O MAGO, SARAMAGO.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Pode ser que seja (música)


Mais um dia/uma palavra
Um sol/um só
Ao meio dia/a noite inteira
Um laço/um nó
Uma palavra/uma só boca
Uma lição que sabe decor

E assim será
quem sabe seja?
Um pessoa
ou todos nós


Uma descida/uma bebida
Meia vida/melhor
No deserto/no mar
Palavra simples/código-mor
Numa estrofe/da poesia
Na caída/do sol

Na encruzilhada/na restinga
Há muitas milhas/há muitos nós
Numa rima/na melodia
Na multidão/a sós
Num precipício/numa planície
Na carne viva/no pó

E assim será
quem sabe seja?
Um pessoa
ou todos nós

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

POEMÁGUA

(Enchente em Joinville - foto que circulou em e-mails pela internet)

Água chorando dos céus
cai agressiva
desliza pelas terras

não há mais ingestão
não há mais espaço na líquida margem
não há sol-ução

nem o vento furioso, nadem,
nada mais absorve

Agora é a vez...
Dona Água é quem nos engole.

ººº

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Guerra a quatro patas: ritmos adultos e melodias infantis

É guerra dentro da gente. Já com quatro patas a engatinhar tentar o impossível. A simplicidade navega pelas bordas da embarcação. Criança tem tema, enredo, estrutura e linguagem. Literatura e poesia, canção e ruído, verso e ritmo. A natureza exótica num conceito antigo. Um veículo da arte sem estar a serviço da arte. Uma atitude anti-dirigista irrompendo o decreto de funções, utilizações e modelos de comportamentos.

Deixar o sentimento deslizar pela boca. Facilitar a metamorfose ambulante do mundo. Chorar quando necessário, gargalhar quando conveniente e mostrar os caninos quando preciso. Não deixar habitar vergonhas e indiferenças, não se acorrentar em malícias ou falsos sentimentos. Brigar, pular, berrar, esquecer, desafiar, propor, deleitar. É ser infantil e não infantilista. Abusar da sinceridade. Achar o mundo perfeito. Quando não é! Não é? Não! Quando pode ser! Será?

De certa forma, ser criança é se libertar da superfície chamada “razão”, que impõe regras e reprime o desejo de mergulhar profundo. É fazer, ir, mais além que uma receita de bolo. É se lambuzar, desconstruir e testar idéias, deslizar pelo novo e interiorizar sensações, não compactuar verdades absolutas, voltar a experimentar sabores que estavam esquecidos, ter essência, medo. Mas, ser criança não é ser imaturo, nem nostálgico. É adaptar alguns itens do cardápio da infância com desejos e obrigações e não deixar que a estaca da responsabilidade censure o instinto da liberdade. É harmonizar atitudes e conceitos.

As obrigações das fases posteriores (ou o estresse, mesmo) atraem outros mundos, alguns, paralelos. Problemas, maus-humores, rancores. Falta de sinceridade com a gente mesmo. Engasga como fosse uma azeitona presa esperando uma pancada nas costas para cuspi-la. Parece aquele cara da propaganda eleitoral que tem uma abelhinha no ouvido. Só faltava começar o texto dizendo: faz quatro anos que uma azeitona entalou na minha garganta...

Criança transcende qualquer conceito, apesar dessas palavras. Dia comemorativo é só para homenagear, ou reforçar o esforço de libertá-la, como no meu caso. E ainda tem gente que detesta que criança seja criança.

(Crônica publicada na revista Premier - Edição nº 24 - Outubro 2008)
http://www.revistapremier.com.br/pagina_nova.asp?id=386&trava=Crônica

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A complexidade do público e privado

Difícil de conceituar, ou até mesmo, diferenciar o “Público” do “Privado”. Poderia sair pelas ruas de qualquer cidade, olhar a igreja, praça, prefeitura, posto de saúde, hospital, centro histórico e nominá-los como um ou outro. A questão estaca no peito algo mais profundo. O surgimento de novos espaços privados, semi-privados, semi-públicos, público-privado — shopping, espaços de lazer de condomínios privados, casa de recepções, espaços virtuais, órgãos públicos com administração privada — de certa forma assumiram uma função acolhedora da vida urbana. A nova configuração possibilitou novas interações sociais. Será que de certa forma decretamos a morte de alguns espaços públicos urbanos? A praça, abandonada, pode ser considerada morta por alguns. Para outros a praça não morre, está ali. Pode sofrer mutações, transformar-se. assim como, os conceitos ocidentais que levamos dela, a luta contra a lógica dominante dos sistemas.
A confusão entre o público e privado remete a uma das principais causas do caos urbano. É uma mistura de fatores históricos com a tendência neoliberal de privatização dos espaços. A mistura das antigas definições com a complexidade de teorizar as mudanças. Uma longa corrente presa ao pé. Os motivos pessoais sintetizam o entendimento de que são sempre mais importantes que os coletivos, alimentando uma espécie de barreira invisível, um narcisismo massivo. A vida privada está sendo trazida ao contexto público. Os espaços públicos onde as pessoas discutiam a gestão de assuntos de interesses comuns se transformaram em espaços publicitários. A paisagem pública passou a ser midiática. Os cidadãos cumprem seu papel: consomem informações.
Definir que tudo que não público é privado ou que tudo que não é privado é público é convencional. Porém, real – talvez a primeira definição que venha a cabeça. Num mesmo ambiente, dois ambientes. As entranhas da discussão parecem estar em delimitar as fronteiras. O público remete a algo de contexto social, coletivo, espaço onde ocorrem as relações políticas, contrasteando, o privado, com sua particularidade-privada-desigual: o shopping, publicizando o espaço e ao mesmo tempo vendendo seus serviços – todos podem estar, nem todos podem consumir. Na internet essa divisão parece não existir. Ao mesmo tempo em que o indivíduo fica privado no quarto, em seu computador, fica exposto ao público, seja através de comunidades, sites, blogs, provocando uma comunicação ampla, flexível. É através dela também que aumentou o espaço comercial, deixando muitas dúvidas sobre seus processos para a inclusão social.
A reformulação dos conceitos desses espaços, ou, um conceito novo, deverá surgir como necessidade para que sejam subtraídas algumas perguntas crônicas. A flecha da intensidade das transformações urbana, a meu ver, criou esses espaços contemporâneos, hoje também resultado das tecnologias da informação. Essas mudanças parecem que remetem o deslocamento dos espaços aos sujeitos humanos, e não mais dos sujeitos humanos aos espaços. Esse mesmo sujeito humano, que tinha vida privada, coloca em xeque agora seu caráter privado (sexo, família, preferências pessoais), e não mais somente sua performance pública. Parece ser absorvido pelo mercado e não mais pelo estado, família ou religião.

(Texto impresso na edição nº 70 do Jornal Experimental Primeira Pauta)

domingo, 10 de agosto de 2008

Outras perdidas por aí ººº

º

Descobri que era sim
me cobri de um não
mesmo sendo assim
mesmo sendo não

ººº ººº ººº ººº

Corri para fora
depois daquela aquilo
só descobri agora
que poderia ser isso?

ººº ººº ººº ººº

Numa era em que a velocidade da informação é fetiche
não resta muito tempo
para que relógio tenha um deslize

ººº

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Recalque de sintoma obscuro

Ela saiu sem dar tchau. Correu pelas ruas e roubou doces das bocas de crianças. Furou filas dos bancos e pulou roletas na estação. Correu pelas calçadas derrubando latas de lixo e espantou os pombos da praça. Transou no elevador com um estranho e cuspiu do alto dos prédios. Recitou besteiras ao pé do ouvido e gozou sementes de ópio. Foi esposa e amante, mãe e filha. Comprou roupas, carros e acessórios banais. Renegou seu passado e acertou suas contas. Lavou e centrifugou roupas sujas de verbo e lama. Leu aquele antigo livro e mastigou suas páginas. Saiu daquela razão ridícula e mergulhou em várias profundidades na imensidão de um lago. Dormiu de toca. Tomou café adormecido e inseriu doses letais de anti-ansiedade. Vomitou poesias baratas em becos imundos. Musicou seus dramas e teceu suas redes de prazer. Andou sobre brasas e queimou seus clichês. Elaborou coquetéis, levitando repentinamente, ressuscitando ao terceiro dia. Descumpriu os 10 mandamentos em pactos capitais. Absorveu o fluído: dentro pra fora e fora pra dentro. Vestiu-se de rato, gato, elefante, macaco, lobo, cordeiro, cachorro, coruja, urubu, e não pagou mais sapos nem micos-leões-dourados. Subiu no ponto mais alto e gritou. Ali, voou. Atirou-se por mais de cinco eternos segundos. Planou além do ar, todavia, libertou-se apenas de algumas prisões. O que ela alimentava não poderia ser explicado, medido e nem entendido. Em alguma forma que ela estava, sentiu saudades. Sentiu-se presa. Perguntou-se então: sou livre?

(Texto elaborado para a 7ª edição do Sarau Palavras Acústicas)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Vídeo do Sarau Palavras Acústicas

O Sarau Palavras Acústicas surgiu da iniciativa dos acadêmicos do curso de Jornalismo da faculdade Bom Jesus/Ielusc, de Joinville. Assista. ...

terça-feira, 6 de maio de 2008

Trocadilho com Lynyrd Skynyrd

Ar cortante, decifre:

[olhos comuns não enxergam] (Há muitos lugares que preciso ver)

Tampouco vapores, tampouco celeste

Nada resta, que virá? (Esse pássaro você não pode mudar)

Passsáro que plana alto

descerá [outros lugares]

longes [ou ao lado]

cintilantes

ao acaso

cortantes

como o ar que decifra (Não voe tão alto)

não se mede, nem vê


.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

domingo, 27 de abril de 2008

RASANTE

Aos pousos rasos
tropicava
distraía seus tombos
rolava-se ao chão entre galhos e pedras

emaranhava
retraía os músculos da testa
dopava-se de dores

emancipava
costurava autonomia
vestia-se de pássaro

Caía
Subia
Descia

Pousava raso e voava profundo.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Máximas oscilantes

Depois de algum tempo escondido resolvi sair de dentro da garrafa. Não como gênio. Muito menos como quem espera um gênio. Simplesmente como alguém que sai de dentro de uma garrafa. Era sufocante. Nada como estar fora. O relógio girou os ponteiros tão rápido que meu tempo não pode acompanhar. Afinal, era uma garrafa ou uma máquina do tempo? As coisas estão aí. Algumas outras que estavam, não. E essas perguntas me faço: Quem estava? O que estava? Não me lembro! Não lembro! Talvez não devesse lembrar. Algo está ausente. Mas isso não é jogo dos sete erros! O que eu devo procurar? Algo pode estar faltando em qualquer parte, movimento, plano de fundo. O que devo distinguir é se realmente essa ausência faz diferença. Caso contrário deveria deixar como algo que sei que falta, mas não me impede de viver. Dizem que quando a gente não lembra é porque realmente não é algo importante. Dizem muitas outras coisas. Com o tempo talvez possa nem mais perceber a ausência. Aliás, ela deve deixar de existir. Mas também pode aflorar. Apesar da segurança preferi o risco. Saí arrotado. Percebi que caibo em pequenos lugares e, por menores que sejam, não são desproporcionais pela espacialidade. Na garrafa que me escondi escrevi um recado. Depois tampei-a e joguei-a ao mar. Um dia alguém encontra. Hoje, aqui e agora, ainda procuro o motivo pelo qual saí. Creio não estar relacionado com uma ausência. E a garrafa?  -Oscila, em algum ponto úmido.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

QUALQUER

Pássaros e seus cantos martelados sobravam nos verdes mais altos,
reproduzindo não só a espécie,
mas a poesia de um espaço qualquer.

Pedras curvavam o meio de alguns caminhos,
simulando aos atalhos,
que seguiam rumo qualquer.

Quando o corpo era somente corpo,
a alma caía pelas escadas roubadas,
entrava ao lado das portas fechadas,
seguia por uma rua qualquer.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

PÁGINA 161

Página 161

Desafiaram-me com a devida ressonância.

1ª) Pegar um livro próximo (não vale procurar);
2ª) Ir até a página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

E publico o resultado:

"Manuel enrolou a muleta para o touro."

In: Contos de Hernest Hemingway / tradução José J. Veiga. R.J: Bertrand Brasil, 2006.


Esse desafio bate-e-volta, volta ao desafiante, poetaço (mistura de poeta e cabaço) J.B, ao combatente do Baú da poesia, a Casa de Paragens (Rubens da Cunha), para uma criança, e para uma outra desconhecida viciada (conhecida) que descobri por aí.

José Eduardo Calcinoni

FARO

Um instinto alto do prazer
debulhado por vasto trago
atitude similar

[peixe magro]

Caminho destilado de versos
silencia o lago
demolidor de pétalas

[olho de gato]

Nuvem magra, dispersa
ofuscante faro
brinde de água benta

[cheiro de mato]

NECROSE

Há uma saída [tentando sair]
(dúvidas encrustadas)
à espera de coragem.

...um momento, perdido [acolhido]
à espera do achado.

...um pecado dormido [amanhecido]
à espera da viajem.

...uma dúvida pregada [estacada]
à espera da ferrugem.

...um estranho no ninho [desenhado]
à espera do novo hábito.

...um sangue pulsando [chupado]
à espera da navalha.

...um poeta, ressentido [quase necrosado]
à espera de coisa qualquer.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

ALGUNS LADOS (MOLDADOS)

Ao lado, nada mais que um gesto simples, dando a entender o que ali se estranhava. Ao lado, nada menos que o mais simples, pensando em entender o como se esperava.
Ao lado, possibilidades impossíveis, transportando a bagagem que suportava.
E mesmo quando estranhava, esperava e suportava, estava sempre ao lado.


...

ME, MIM, COMIGO; SE, SI, CONSIGO...

Esses dias pensei comigo

e de tanto pensar,

nem lembrar eu consigo.


...

CONCLUSÃO (AINDA QUE AS VERDADES SEJAM MENTIRAS E AS MENTIRAS SEJAM VERDADES)

Algumas verdades são tão inúteis,

que sempre quando as digo,

penso que estou mentindo!


...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

FUNÇÃO

De todas as palavras ditas, apenas uma, somente, foi realmente ouvida. Nada que se falasse naquele momento seria tão relevante quanto aquela única palavra. Cantou-se músicas, leu-se poesias, rezou-se, mas nada, absolutamente, podia substituí-la. Porém, como nada é insubstituível, durou-se apenas aquele momento, e depois vieram outras palavras, em outros momentos, insubstituíveis.


...

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

ESPAÇO EDUARDO GALEANO


OS SONHOS DO FIM DO EXÍLIO/3

As lentes dos óculos tinham se quebrado, e as chaves tinham se perdido. Ela buscava as chaves pela cidade inteira, às cegas, de joelhos, e quando finalmente as encontrava, as chaves diziam que não serviriam para abrir suas portas.

extraído do "Livro dos Abraços"


...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

NOVO DENOVO NO


O novo

(não é mais novo)

não tem nada mais

(denovo)

tão novo quanto

a velha dúvida:

Quem nasceu primeiro:

a galinha ou o (n)ovo?

terça-feira, 24 de julho de 2007

Casos e acasos

Acaso nada poder

podendo causar nada

nada poderá causar



Acaso restando nada

restando nada causar

nada causará restar



...

quarta-feira, 13 de junho de 2007

TRUQUE


(!) Dormiu sortido (...)

(!) Sonhou azarado (...)

(!) Acordou embaralhado (...)

(!) Tomou café descartado (...)

(!) Escovou os dentes-coringa (...)

(!) Vestiu às de copas (...)

(!) Encarnou mais uma de suas caras-de-paus (...)

(...) saiu à procura de emprego(!?)


...

MOVIMENTO

Uma montanha se moveu
[pensamento honrou-mérito]


...objeto moveu
[cartas desmancha-castelo]


...olhar moveu
[enviou mensagem-despautério]


..veia moveu
[coração bate-martelo]


...sentimento moveu
[mostrando instante-belo]

segunda-feira, 14 de maio de 2007

CRIVO

Dentro de toda indiscrição submissa do compromisso altivo e relapso, existe uma severa corrente que produz intolerâncias e discrepâncias relativas.


O complexo é que na alteridade relativamente composta de vicissitudes e turbulências acromáticas, sempre há por vir uma emblemática e solucionática versão.


O fato se escriva do percurso ambulante, podendo em pequenos instantes desvincular a faculdade de racionar do paraíso elevante da insanidade mental.


A possibilidade se altera aos fatores premunidos de aceitação, e eleva o conteúdo estabilizado ao estado de dormência, descobrindo assim, que o caminho inutilizado mais provável nem sempre é o extremo do caminho convencional.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

OSSO E BAGAÇO

Se, destas frases tolas que ouço
houver apenas um trago
da poesia suja que me alimenta
poderei ao menos brindar
a incoerência destes fatos
poderei apenas destilar
o run da ignorância
poderei apenas desligar
o aparelho da sentença


Se, destes olhos fracos que enxergo
houver apenas uma dose
da percepção que me orienta
poderei ao menos escapar
da impotência dos fatos
poderei ao menos segregar
o frasco, a fragrância
poderei ao menos distanciar
o espelho do meu rosto


Se, destas poucas palavras restar apenas eu
fico eu sendo resto delas


fico eu sendo o osso
fico sendo eu o osso e o bagaço

domingo, 22 de abril de 2007

ESPAÇOS VAZIOS (ACIMA DE NOSSOS PÉS E ABAIXO DE NOSSAS CABEÇAS)

Além dos olhos que me guiam todos os dias, e das lembranças fartas de misericórdia, vi, através do mais simples desejo, novas formas de desfrutar diminutos espaços.

Entregue ao compasso desvinculado da razão, saltei sobre a valeta que criava uma divisão em torno de minhas decisões.

Em todos horizontes foi possível descobrir falhas. Espaços vazios camuflados. Lacunas invisíveis. Portas sem trinco. Lugares sem endereço. Palavras ausentes de som e forma.

Diminutos espaços: quase desfrutados.


...

segunda-feira, 9 de abril de 2007

LENTAMENTE

Se o olho não falasse além
e a lentidão que causasse o sentido, porém
não causasse-o somente,
e além não falasse freqüente
todo ser seria existente
no momento, sentido diferente
causar-se-ia uma lombeira
no olho do sentido ausente
que da lentidão de sentir além
lentamente o deixaria crente


domingo, 18 de março de 2007

CUSPE (AINDA MESMO QUE SEQUE A SALIVA)

Ventre sedento gozado de flores


saia do tempo teu


cuspa fora teu caos de amores



...

SER (NO AMPLO SENTIDO DO QUE SE PODE SER)

Se ao menos estivesse sendo


brincando de ser nesse mundo pequeno


todo ser seria sereno


...

PERTO-PASSO (PASSANDO À PASSOS LENTOS)

Aperte o passo

passe por perto

por passe-apertado

passo-alerta

passo-aperte

passado por perto

Aperte: passo-forte

passaporte-alerta

passa: porta-apertada

por passado perto

pé-par, por perto

Passo, posso, peça

apertando o passo

pé por perto

passado perto passo

pequeno ex-perto


...

INCIDENTE

Do que vivi, não peço-me desculpas
Do que deixei de viver, acato como potencial
Crio-me ao acreditar na capacidade do entendimento [mesmo sem entendê-lo]
Faço-me de prosas e versos, palavras sintéticas


Sou poeta, na mais pura incompetência de escrever
Numa auto-investigação,
Na psicografia do meu inconsciente
Escrevo-me, sem saber o que escrever


Provoco-me num absorvente sentimento
Falsa intimidade, farta em detalhes
Desdobrada pelo bel prazer de transformar
Escrevo porque organizo meu submundo
Concilio-me com meus fantasmas


Reconstruo-me nas consoantes e vogais
Destroços de verdades naufragadas em correções ortográficas
Que consolidam a quilha do meu barco literal
Veda os furos um a um
Criando um possível acidente na inquietação de minhas idéias

VIDE BULA

Não fuja do que tu és. Acalme-se. Busque a vida que a vida lhe buscará. O segredo não está em ir sempre mais fundo no imenso lago. Ele pode estar em vários lugares ao lado de onde você sempre existiu. Em profundidades tão rasas quanto a superfície.


...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

ROSAS E PROSAS NO VERSO

Rosas e prosas no verso
exaltantes olhos brilhantes
lábios cortantes e incertos
distraindo momentos-intantes



Essência central descentrada
unidade do universo-sentimento
necessidade de purificação travada
finito-infinito em momentos



Impulso irracional insatisfeito
necessidade tragicamente enganosa
finalidade fundamental de direito
fábula fascinante em prosa



Crítica irredutivelmente realista
alienação de desejos e esperanças
enigma da existência monoteísta
hierarquia-guia do homem-criança



Pleno, autêntico e carnal
redutor propositalmente ofuscado
direção especulativa anti-material
encontro sálvico consagrado



Perpectiva pessimista e conflitante
série de contradições inextricáveis
fraternidade universal intrigante
fecundidade de gerações implacáveis



Limitante da liberdade alheia
inesperança sem lógica e sujeição
impessoalidade celebrando ceia
ao bem, à beleza, doce-paixão



Ciência sem ciência, universo latente
paixão-tendência da ação imoral
caridade oculta: quando não se entende
repouso de paz, além-carnal



Lealdade sagrada, força da profecia
condução à vida bem-aventurada
indiscrição sedativa da noite-dia
posse inevitável, frustrada



Finalidade principal da lei divina
semelhança com efeitos submersos
manual de poesia que ensina
rosas e prosas no verso

...

DÍVIDAS

Frisei as garras do ódio


fiz do medo ópio

joguei fora verdades


destilei-me à cortes


Apostei todos dados


vinguei soluções

sem saber os problemas


desfragmentei meus átomos


Tudo fez-se de conta:


e as contas todas foram pagas
...

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

VIDA DO EU

Mais um dia na vida do Eu:


um sonho assim nasceu
sem Ninguém desconfiar


mesmo Ninguém sendo Eu
Alguém foi alcançar


Sonhou assim como Eu
mas Ninguém quis acreditar


que Alguém assim como Eu

pudesse assim sonhar


Então, mais um sonho na vida do Eu

foi se realizar


Sem Ninguém atrapalhar

sem Alguém mal olhar


Do sonho que assim nasceu

só restará


Ninguém, Alguém


assim como Eu

DO MAR...

Mar imenso-aberto
ondas destino-coração
gosto sabor-mistério
sonho em mãos pegá-lo


--------------------------------


O mar é como se fosse proporcionalmente o inverso de um soro caseiro:

já possui a água com uma colher de sal,
esperando-nos como uma pitada de açucar.


---------------------------------


O mar

sete ondas numa vida
seio farto
mar
horizonte despedida


---------------------------------


Mar
pai-avô-filho
lembrança-rede-peixe
segredo-morte-vida
remédio-olho-alma


...

A EPILEPSIA DE UM TOM QUALQUER

Mãos nas cordas
cordas vocais não falham

notas, passam, passam
suaves, agúdas, estranhas

relaxo em si
espelho do sol
ardente sem dó

(enquanto isso)

eletrizam escamas dormentes


...

SERÁ?

Se tudo pode ser

tudo pode poder ter

na esperança do que será?

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

OUSADIA

Brinde ao som das borboletas


pairando sobre a gravidade
estetizando céu adentro
desenhando o ar
desfrutando liberdade

E para os leigos:

Quem ousará dizer que foi lagarta?

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

DA SAUDADE...

Saudade corta-lábios

beijos boca-tesão

cheiro mel-suor

desejo pecado-carne


************************


Saudade é o tempo

tempo que não passa

enquanto passa o tempo


************************


Saudade morta-mata

sentido vivo-viva

sentido morte-mata

saudade vide-vida


************************


Saudade

espinho crú de nervo e calo

pote dágua sem gargalo

Saudade

truque de carta fora do baralho


************************


Saudade

lembranças cristalinas

bomba sem efeito moral

ineficácia do poder

saudade

hino impossível de esquecer



...

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

GOTAS DE ORVALHO

O sol se revalida
O céu pede carona


Enquanto caem gotas de orvalho


Sobre pés descalços
Rachados pelo esforço diário

Quando nada mais se encanta
Sob total nada se distrai

Me lembro quando criança
Brincar de olhar o sol nascer
O céu pedindo carona

Enquanto caiam gotas de orvalho

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

TRANSE 3 (UM DIA, DEPOIS DA CRIAÇÃO)

Descendo ao paraíso profundamente imaginado,
comi a maçã e arrotei Eva.

...

CAMUFLAGEM

Escalei o morro dos sonhos
procurando o paraíso


no primeiro dia
o pecado bateu à porta
entrou aos olhares primeiros
conspirou sob dermes e salivas
abusou do meu eu


Sussurrou pelos lábios dela
transpirando prazeres


E como fiel seguidor dionisíaco
não rejeitei-me ao acaso
bulinei-me corpo e mente
afoguei meu ego


demasiadamente afinei meu instinto
no mar vermelho da sedução
mergulhando entre libidos e ilusões
fascinando aparentemente minha razão
que se destruía com a metástase ardente

camuflando-se
com o gosto passional do desejo

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

REFLEXÃO - DESENCADEADO

¨Procuro não prender-me a um só estilo. Prefiro arriscar-me ao anticonvencionalismo, ao pacto com as idéias não-concebidas e aparentemente distantes. Acredito que o grande barato da poesia é ausentar-se de regras. É tão fácil copiar estilos ao invés de criá-los, encontrar erros ao invés de entendê-los, calar-se ao invés de arriscar-se, dificultar-se. Tão cômodo ter censo-comum. O “experimentar” pode ser a chave para a inovação perceptiva, desencadeando uma abertura atemporal de qualquer estabilidade racional.¨
José Eduardo Calcinoni

OUTROS

Outro este? Porque não?
Se acaso fosse outro, igual não seria?
Se igual fosse outro, como explicaria?
Cópias? Outros como outros?

Mas se outros como outros:



A essência sobreviveria?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

RESPOSTA

Essa fonte de idéias que gera a arte de escrever nem parece às vezes que é inesgotável. Os black-out's mentais ocorrem freqüentemente no cérebro poético. Há horas, dias, meses, que às vezes passam em vão. Mas será que realmente passam em vão? Muitas idéias precisam de um período mínimo de gestação, seja no inconsciente, ou seja, informações já escritas e armazenadas. Assim como as fétidas fezes de alguns animais se transformam em poderosos e incomparáveis adubos, as palavras precisam também de um período de curtimento. Digamos que, assim como uma planta, ela nasce semente, cresce, floresce e produz seus frutos - nem sempre bons. Tudo pode ser aproveitado de alguma forma para alguma coisa. O sentido só faz sentido se o buscarmos. Talvez a busca seja o próprio sentido, no sentido de que buscando nos desviamos por atalhos sensitivos que nos preparam em "banho-maria", temperando e desengenhando o estável e o improvável.

MAIS

Dizer
Mais do que se possa sentir


Sentir
Mais do que dizer palavras


Olhar
E nada ver


Ver
Além do que se possa olhar


Escrever
Algumas palavras assim


Assim
Mais do que dizê-las

ABANDONO

Abandono

Falta de inspiração
Más idéias


Álcool, gordura e samba

Desafino
Incanções

Osso do bagaço


Abandono-me

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

JORNADA - PARTE 2 - CAMINHANDO

Já no mais puro desejo de navegar e naugrafar no oceano da trangressão racional, para que assim pudesse ultrapassar um obstáculo emblemático e tão antigo quanto o instinto de reprodução das espécies, eu progressei deixando as primeiras pegadas da minha jornada.


No primeiro altar que subi, pedi à Zaratustra um golpe de luz, que pudesse desencadear minhas mais leves reações e petrificar os sentimentos que poderiam vir à ser minha cruz.


Saindo da região totalmente devastada de idéias, esbarrei num objeto misterioso e reluzente. Era um medalhão dourado. Nele, estava escupido um símbolo e letras à qual não tive menor noção. Guardei-o no peito como se fosse um amuleto de proteção, pois passei a acreditar que assim o fosse.


Retirei das minha tralhas um velho livro, de orelhas grandes, empoeirado, e, o abri de forma simples, na mais subjetiva intenção, prevendo que aquilo seria uma pista para meu próximo passo.


Então, na linearidade - justo aquela que nunca quis - do pensamento momentâneo, joguei o amuleto num lago de percepções reais, mas inexistentes. Deixei fluir somente oxigênio em meu corpo, meditando por alguns minutos, e aceitando mais uma vez meu estado imprevisível de decisão.



JORNADA - PARTE 1 - O COMEÇO

Meu golpe começou a instalar-se com um Distúrbio Bipolar de Animo, e conseqüentemente, acabou levando-me ao óbito do décimo sexto sentido que desenvolveria.

O que poderia agora um Cavalheiro de Verona como eu tentar desfrutar da própria ânsia de escrever elevando apenas o ato de que não decriptei meus rotores cerebrais?

Enquanto todos lá ficaram rodeados de mosaicos, tentando a purificação, eu acreditava [ainda que muito pouco], que o auxílio psicoterápico dos monoteístas, não efetuaria na própria distinção das confrarias dos Nagôs e Yorubas.

Saí em busca do visionário acrônico, que o chamavam de Pentateuco, onde agrega respostas para algumas interrogações crônicas de minha constante jornada.

Todas as pistas que deveriam levar-me ao êxito, me alertaram que o começo seria tão díficil e tão requisitado quanto o meio e fim [se é que assim posso reparti-lo].

No sopé do monte Horebe, logo após o lago de sangue [ou groselha se assim melhorar], recebi apenas mais uma de minhas rotineiras visões que não me esclareciam absolutamente nada.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

REFLEXO SÃO – BOSQUES-LOUCURA-ECO

A loucura é a profundidade abaixo da razão. A razão é a superfície de um lago-idéias-pensamento, que ultrapassada eleva a pressão-agíl-criação, nos libertando da decadência-moral-legal. É o pólen que origina o mel-instinto-inconsciência.

ANSEIO SISTEMÁTICO

Entre intrépidos sabores, o mais distante é o que sinto. Distante no sentido do normal. Normal que é o próximo do que somos — ou do que achamos ser, ou querem que sejamos. Seres impecáveis, implacáveis. Tolos sós. Sentindo a todo instante o sabor do pecado. Se é pecado original ou não? Não sei! O que importa é que nos liberta de um abismo sórdido e moribundo, rodeado de censos-comuns, papais-mamães, e, resultantes da simétrica razão. O sabor provém das misturas-sistêmicas — no amplo sentido da união substancial, porém, conservando suas propriedades específicas, resultando uma diversidade minimamente alcançada, onde o minimamente seja cada vez mais distante.

FLOR-HORMÔNIO

Caiu noite-tensa
Temeu medo-amante
Amou flor-primeira
Floriu essências-poucas

Subiu teto-céu
Serviu corpo-mente
Mentiu instinto-carne
Instituiu sintético-prazer

Desintegrou bruta-matéria
Bravejou presa-dentes
Preveu ferormônio-calor
Morreu gozo-primeiro

UIVOS

Passei pela rua dos prazeres
Roubei da donzela um convencional beijo


Cruzei a ruela afogado de salivas


Li Vatsyayana,
Atingi ao Artha, Dharma e o Kama


Joguei no lixo a imperfeição
Matei todas minhas ânsias


Dormi ao som dos uivos

MATA-VIRGEM-MATO

Não me mato de saudade
Mato-me no mato
Mato, saudade mata
Mata-virgem, mata-saudade
Saudade-morta, virgem-mato
Mata no mato-virgem saudade
Saudade de mato-não-mata
Virgem não mata saudade

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

TOLICE

O abismo das imaginárias e absurdas tolices
Desperta sedentamente o vinho do prazer



Embriaga ao ritmo obsessivo do acaso
Desconserta o caminho restrito de algumas palavras



Abandona o medo convencional crônico
Desobstrui as vias, veias e velhas manias



Mostra um caminho distante apenas da razão
Próximo de um lugar onde inconscientemente desejamos estar

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

ESPAÇO DRUMMONDIANO

O que muda na mudança
se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança
junto ao que nunca se alcança?

LENDA QUE VIROU LENHA OU LENHA QUE VIROU LENDA?

Lá, daquela árvore

que caiu a casca
soltou a tinta
que pintou o pano
tingiu a rede

Lá, daquela árvore

que virou lenha

INCERTO

Orgasmo direto do sujeito composto
Sentido no vácuo do pretérito perfeito
Ouvido na imperfeição
Do verbo intransitivo direto


Esquecido pelo sujeito simples
Lembrado pelo superlativo oculto
Absoluto num só instante
Não é demodê nem moderno


Modernidade escrota entravada teoricamente
Reduzida ao ninho na tocaia do vazio
Reduto acéfalo bulinado
Pela proeza do que se diz esperto

Artifício do provérbio babilônico naufragado
Masturbado na massa cinzenta diluída
Inutilidade contrária
Ao raciocínio sequelado e incerto

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

BAGAÇO

Que vida é essa?
Quanto poder de nada poder?


Carona com a solidão
Destino aberto


Bagaço de idéias furtas


Vida, vida, amada vida
Ama-me e não traia-me

CIO DO VAZIO

Paredes vazias
Segregam silêncios
Esquecidos no vazio


Quartos vazios
Integram ausências
Dispersas no vazio


Camas vazias
Refletem desejos
Nostálgicos e vazios


Cio do vazio

PACTO

Descabido pensamento
Inconstante pecado
Rodeia-me com fogo
Trata-me como escravo


Concede-me ao jogo
Sublime pacto


corpo e mente

NÃO DEIXE EM VÃO

Tanto tempo longe
Tampouco para estar lá
Tão perto sempre
Parece não estar


Tempos longos e distantes
Tempos sem se achar


Às vezes o instante de agora
O melhor tempo
Como se fosse inevitável
Único, descobrir


Não o faça amanhã
Hoje, não deixe em vão

COGUMELO PLATÔNICO

Mas afinal o que é o amor?
Um tema filosófico, teológico, artístico, místico?
O escrevemos, pensamos, falamos, sentimos?


Alguns pensadores consideram o amor como uma dimensão exclusivamente humana. Outros vão mais além utilizando determinação do divino como fundamentação, principalmente do seu lado dito positivo — relacionado ao amor de Deus e a sua importância para alcançar a salvação.

Platão foi o primeiro pensador ocidental capaz de elaborar uma reflexão específica e ampla sobre o assunto — que até hoje é inevitável termo de referência.

Em sua concepção o amor é uma força grande e poderosa que se caracteriza no impulso que se dá ao ser humano sinceramente sedento de sabedoria, e por isso dócil a tal impulso, a fim de superar as baixezas da vida material e da experiência sensível para elevar-se rumo às alturas do mundo ideal situado além do mundo físico, onde, segundo Platão, residem a Beleza, a Verdade e o Bem na sua pureza perfeição.

Para Platão o amor significa a disposição para elevar-se em busca do que é eterno, perfeito e imutável. Neste sentido o “amor platônico” revela a sua natureza essencialmente filosófica. Esse amor lança uma ponte entre o universo sensível e o universo puramente inteligível, entre o universo corpóreo e o espiritual, entre o relativo e o absoluto, entre o contingente e o necessário, entre o particular e o universal.

Sendo assim, a condição humana é caracterizada por uma espécie de escravidão da alma em relação ao corpo. O amor, porém, poderá ajudar a alma a reconquistar a sua posição primitiva e originária, contanto que as paixões não ofusquem demasiadamente seu lado positivo, isto é, um lado que, ao contrário, é justamente capaz de exaltar sobremaneira, possibilitando de fato a reunificação da alma com a trancedência.

Se o amor é somente um assunto relacionado à especulação teológica, não sei. Sei que todos os filósofos direcionam atenção especial. Sei que movimenta nossas mais diversas espectativas.


“O amor Platônico é cogumelo:
nasce, cresce,
suas propriedades criam pontes entre universos”

terça-feira, 28 de novembro de 2006

ESPAÇO LEMINSKI - 1


que tudo se foda,
disse ela,
e se fodeu toda

CONJUGANDO

Verbo 1

Eu mando
Tu mandas
Ele manda

Nós mandamos
Vós mandais
Eles obedecem

Verbo 2

Eu mando
Tu mandas
Ele obedece

Nós mandamos
Vós mandais
Eles obedecem

Verbo 3

Eu mando
Tu obedeces
Ele olha

Nós mandamos
Vós obedeceis
Eles olham


Verbo 4

Eu não obedeço
Mas tu não mandas
Ele apenas olha

Nós não obedecemos
Mas vós mandais
Eles nem mais olham

Ninguém faz porra nenhuma

EXUBERÂNCIA

Só os loucos caminhos retratam

Uma exuberante forma abstrata

Distintas palavras várias

Impondo situação precária



Paixão pela forma inexistente

Reluzindo a mente como espelho

Enxergando o que se sente, apenas,

Evitando o que está a frente

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

ESTRANHO - 1

Ele olhou-a com olhos ímpetos de malícia. Ela passou e evitou-o friamente. Ele, no impulso irracional do fervor, alcançou-a e atirou pétalas e versos poéticos da mais pura inspiração. Conquistou-a. Então, fechou os ímpetos olhos, e pôs em prática suas malícias.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

APENAS AQUILO QUE PODE SER MAIS

Sobre a areia
Energizo-me
Disparo pensamentos imaculados de razão

Jardim sem borboletas

Flores falsas
Terra pobre

Piso na areia que não existe
Não tem passo nem leveza
Apenas energia

Que fantasia pensamentos

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

SOLUÇÃO

Ah! Pobre Luiziane!
Sempre estava em seu canto, só.
Quem via de fora sempre era solidário à causa.
Ela repudiava seus colegas.
Só conversava com garotos mais velhos e dos colégios particulares.
A mãe de Luiziane era diarista e o pai vigilante noturno, ambos, dignos cidadãos.

Diziam pelos corredores que ela "comia sardinha e arrotava caviar".

Ah! Pobre Luiziane!

Estava até com soluço!

SAPO 3




Um sapo de gravata e salto alto desfilava pelas margens do lago. O sapo estava em campanha. Cantava e seduzia à anfíbios e insetos.

As eleições dessa estação serão através do voto direto.

Seus descendentes anuros nunca governaram a lagoa, porém, agora, como míseros excluídos, são maioria. Seus maiores inimigos, que comiam os rivais, hoje se rastejam em outras lagoas, e os que ficaram, são aliados.
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Até na própria natureza sapos aliam-se à répteis em busca do poder.
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Talvez a explicação venha da ciência:
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"...são ectotérmicos, ou seja, a temperatura do corpo varia de acordo com a temperatura do ambiente. "
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E que também afirma:
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"Os répteis põem menos ovos que os peixes e anfíbios, pois o sucesso reprodutivo é maior."
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Será certo afirmar que o homem imita a natureza?

SAPOS 2



O sapo cantava no lago
O sapo comia insetos
O sapo namorava até as salamandras
O sapo não tinha medo das cobras
O sapo zoava

O sapo não "pagava sapo" pra ninguém

SAPOS 1



O sapo foi morar na cidade
O sapo pulou na rua:

entre um pneu e o asfalto crú
descobriu
porque a maioria dos sapos
prefere morar na lagoa