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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Geração zum





E este, que vê a cena passar
através da tela obscura do celular
live cruel
nega ajuda


E este, que vê a cena passar
inerente aos cheiros da vida
inóspito
cárcere virtual
nega o real


E este, que vê a cena passar
de pescoço baixo e dedo duro
despercebido do tempo
inutilidade
nega o rumo


E este, que vê a cena passar
barco sem boeiras
impercebível
e outros navegam iguais
nega o contato


E este, que vê a cena passar
guia automático
corta-se com ceróis de pipas
sangras os olhos
nega a ferida


E este, que vê a cena passar
em lugar qualquer
menos no seu
Este, estes tolos
mundanos modernos

azumbizados


Ilustração do artista Steve Cutts





Reflexão sonora I


Amazing Oriental Music 
Faran Ensemble





terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Destino acaso

Há uma saída
a se sair
dúvidas encrustradas
à espera de coragem

Há um momento, perdido
talvez o encontre
em um passado futuro

Há um instante
a qual pertence meu presente
futuro passado a limpo

Do meu quintal

Olha, seu moço
o mar avançou
e a praia no fundo
a água levou

Eu vi a onda
espuma de sal
borbulhando na água
continental

O vento assopra
corrente que vem
a força que puxa
vai e vem

Eu vi, seu moço
a maré que subia
cavando a areia
engolindo a restinga

Olha, seu moço
assoreou o canal
tem fumaça de sal
na minha janela
tem areia voando
no meu quintal


Outra rebojera

Vento agressivo
nascente do sul
destelha casas
despena sombreiros
corre ao mar e empilha na costa
espirra areia
salga paredes
reboja o ar

Vento agressivo
frente fria
espaço de tempo
fermenta e causa convulsões nas ondas
liquidifica os oceanos
separa cardumes
racha e corta lábios
assovia o ar

Vento agressivo
adjetivo
substantivo

levou junto a rima

Rebojera

Há ventos
tempos mexidos
águas que desabam
abafam

Trovoadas de verão
furiosas 
encontro de massas
entre frio e calor

Que me resta disso?
Esperar!

Aprendi certa vez

O mar e o tempo se acalmam,
depois dessas tempestades.

Foto do artista americano Adam Ferriss

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A função da arte/2 (Eduardo Galeano - livro dos abraços)

O pastor Miguel Brun me contou que há alguns anos esteve com os índios do Chaco paraguaio. Ele formava parte de uma missão evangelizadora. Os missionários visitaram um cacique que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto e calado, escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram 
esperando. O cacique levou um tempo. Depois, opinou: 
— Você coça. E coça bastante, e coça muito bem. E sentenciou:
— Mas onde você coça não coça.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Correntes de frio do sul

As correntes que trazem o frio do sul

tossem ventos 
cortam água
assopram restingas
transformam dunas
remexe o fundo lodoso 
rabisca o chão de mar


dessas e outras tantas formas
dessas correntes de frio do sul

não há forma que justifique
a essência de sua baixa pressão
a beleza dos pássaros voando alto
as telhas arrancadas dos beirais
o ferro corroído pelo salitre

São correntes que trazem o frio do sul
que resseca a pele
racha os lábios
assovia o vento
esfria o corpo
aquece a alma

dessas e outras tantas formas
dessas correntes de frio do sul




De fronte ao mundo

Certo dia vi
o que sempre olhava
estava ali

de fronte ao meu nariz e ao mundo

tudo se passava 
nada passava em mim

tudo acontecia
nada acontecia em mim

no dia que vi
meus olhos se fecharam


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Agumas


Sigo atento
busca vida
luz que brilha
olhar ofusca
 - - - - - - - - - - - - -

Desapego
auto degelo
ignoro o backup
sigo em segredo

- - - - - - - - - - - - -

Enquanto me procuro
distancio de mim
busco só
o que não tem fim

- - - - - - - - - - - - -

Mergulhando no raso
água nas narinas
luz que transbordava
quebrava ondas salinas

- - - - - - - - - - - - -

O vento assovia
 brisa rebojo
areia de carona ao vento
entrava em meio ao olho



Homenagem ao poetaço



JB poetaço

da caixa de ressonância de aço

verborragia do amargor e melaço
impureza e cabaço
fisga do fígado ao baço

em curto tempo e espaço
morro e renasço

(Homenagem ao amigo poetaço J.B)

terça-feira, 5 de junho de 2018

Terra fértil

És semente
saiu de mim
floresce como primavera
canta como pássaros
relaxa como mar

És semente
a qual muito sonhei
nunca imaganaria
o valor que a cerca
toque divino

És semente
Cresce e proverá bons frutos
Alenta alma
perfuma o mundo
amor purificado

És semente
tão simples
única e parecida
igual em partes
pedaço de mim

És semente
infla meus pulmões
enseja motivos
ação contínua
ser feliz

És semente
raiz forte
tronco firme
copa verdejante
flores do ano todo

És semente
vens de mim
milagre divino
amor duo
floresceu



https://hypescience.com/veja-plantas-germinarem-e-crescerem-em-segundos-em-incriveis-timelapses/


terça-feira, 29 de maio de 2018

Ideias e impressões





Limites estreitos e cercas farpadas separam verdades

Sensibilidade e intuição
emoções e desejos

Ideias emalhadas de impressões falsas
cópias singulares de algo que já visto
percepções dissimuladas sobre o que é real

O tempo que assovia com o vento e assopra experiências
deriva conhecimento
subjetiva representações sapiens de uma geração z

Dessa condição subjetiva da nossa alma, espinho-me na questão a qual sucumbo:

"Conhece-te a ti mesmo"...

depois...
outras coisas.

E o tempo se faz senhor supremo!



segunda-feira, 11 de julho de 2011

Os astros do céu e da terra

Em julho de 1969, numa transmissão ao vivo para todo planeta, o primeiro homem pisava na lua. Entre comemorações americanizadas, há contestações, dúvidas sobre a veracidade do fato e, para alguns, indícios conspiratórios para aquilo que poderia ser considerada a fraude do século passado. A presença humana na lua, se verdade ou não, destacou um marco no alcance da ciência. Divindade para muitas civilizações que por aqui passaram, a lua é vista por alguns como um símbolo feminino associado à fecundidade, à fragilidade, à ilusão, pureza e inconstância, pelo fato de estar sempre mudando de fases. Considerada como nosso satélite natural, a lua exerce influência sobre as águas, provocando as marés. Como plantas, animais e pessoas em sua composição possuem uma porcentagem alta de água, acredita-se que também sofram influência lunar. Em consequência disso, também tem ação nos hábitos dos homens, que refletem claramente em suas atividades, destacando a agricultura como uma das principais. 


No sétimo mês do ano também comemoramos o Dia do Agricultor, outra figura celeste e responsável pela fecundidade da terra, através da produção de alimentos que são consumidos por uma população exorbitante. Essa profissão exige uma condição de trabalho pesado, apesar de toda mecanização disponível. A cultura dos povos primitivos ainda se acentua na modernidade. A escolha de determinadas fases da lua para plantio, colheita e poda, ocorre normalmente em várias partes do mundo, independente dos estudos científicos. Além de nos cercar de mistérios e nos atrair com sua beleza, a lua fomenta uma considerável relação de fé com as pessoas. O agricultor, assim como a lua, cada um na sua condição, são dois astros, categoricamente indispensáveis e responsáveis diretamente pela manutenção da vida.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010


Sempre lembre se for poeta:
bom humilde ser
salto alto
 tamanco cai do pé e torce ego

Tiro certeiro

Caminhos, estradas, atalhos
Lugares em algum lugar

B   ú    s    s    o    l    a    ?

Quantas milhas náuticas
Qual profundidade?
........... A
...............(L)
....................T
........................I
...........................T
..............................U
..................................D
......................................E
Sonhos não precisam de precisão!

"Um mapa
.do mundo
que não inclua utopia
nem vale a pena olhar" (Oscar Wilde)


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A ARTE DO BONSAI

Como não existem documentos que comprovem como e quando exatamente surgiu o bonsai, há muitas histórias diferentes que descrevem a origem. No entanto, é possível citar pontos em comum entre elas. Segundo as diversas versões, os primeiros bonsai foram cultivados no china há milhares de anos atrás. A história mais aceita entre os cultivadores do mundo todo, é a de que há milhares de anos, na China, os homens mais ricos e cultos saiam das cidades, buscando maior contato com a natureza. O intuito era seguir para as montanhas e lá contemplar todos os fenômenos naturais, tudo isso visando atingir a harmonia e a tranquilidade do espírito. Em meio às matas, esses chineses encontravam muitas espécies de árvores de tamanho menor. Eles as chamavam de árvores-anãs. As formas em miniatura, fascinaram tanto, que começaram a retirá-las das florestas e cultivá-las em vasos. Inicialmente, as árvores em miniatura eram mantidas como eram encontradas, sendo apenas transplantadas para vasos. No entanto, com o tempo, foram surgindo, de forma gradual e lenta, técnicas que visavam aprimorar o formato dos pequenos exemplares. Essas miniaturas passaram a ser chamadas pun sai. Muitos acreditavam que os chineses, os quais deram início ao que seriam os primeiros bonsai, não eram apenas ricos, mas estavam relacionados diretamente a religião. firmam que se tratavam de monges taoístas, que admiravam essas pequenas árvores, devido aos seus sinais de velhice e de luta pela sobrevivência contra as adversidades da natureza.

Saído da China

Como isso, desmitifica-se a idéia de que o bonsai foi originado no Japão. Os chineses foram os responsáveis pela miniaturização de árvores em vasos. Eles acreditavam que eram um vínculo entre o céu e a terra, algo que estimulava a meditação. Levados pelos monges chineses, a arte chegou ao Japão, na Era Kamakura, que compreende o período entre 1192 d.c. e 1333 d.c. Lá a prática foi modificada, desvinculada da religião e tornou-se uma arte. Os japoneses passaram a ver o bonsai como uma expressão do homem, interpretando a natureza e, então, procurando recriar suas formas com a maior perfeição possível. Inicialmente, era uma prática da aristocracia, mas com o tempo, se dissiminou. Contam que, já em 1664, um funcionário do estado chinês se mudou para Japão, onde passou a se dedicar ao bonsai. A partir do conhecimentos transmitidos por esse mestre, os japoneses desenvolveram as técnicas de cultivo e criaram os estilos básicos. O bonsai chegou ao Ocidente, muitos anos depois, no século 18, ingleses retornaram do território japonês, espantados com as pequenas árvores cultivadas em vasos, que produziam e se assemelhavam das encontradas na natureza. A notícia se espalhou pela Europa.Em 1914, aconteceu a primeira exposição nacional de bonsai no Japão. Dizem que alguns exemplares expostos, estão vivos até hoje. E 20 anos depois, o Museu Metropolitano de Arte de Tóquio, instituiu a exposição como sendo anual e ela é realizada até hoje, a Kokufu Bonsai Ten.


No Brasil

As primeiras histórias relacionadas a arte do bonsai, são de 1908, com a chegada dos primeiros imigrantes japoneses. Acredita-se que eles trouxeram pertences que lembrassem a sua terra, entre eles alguns exemplares de bonsai. No entanto, de acordo com Chuji Takeguma, autor do artigo "História do Bonsai no Brasil", publicado em 1938 e divulgado até hoje pela Associação da Tradição Oriental, da cidade de Curitiba-PR, a prática no Brasil, não começou exatamente na chegada dos imigrantes. Takeguma conta que muitos conhecedores e admiradores da arte, desembarcaram em terras brasilieiras, entre eles o monge budista Tomojiro Ikaragui. Ele teria trazido o tronco de uma amoreira, o que poderia ter sido o primeiro bonsai introduzido no País, se a alfândega brasileira não o tivesse confiscado. Vindos para trabalhar nas lavouras de café, os imigrantes japoneses se dedicavam basicamente ao cultivo agrícola, sendo esse um outro motivo que teria atrasado o início da arte no Brasil. Apenas na década de 30, com estabilidade financeira, alguns imigrantes iniciaram o cultivo de exemplares de bonsai. A partir de Guaiçara, município do interior do Estado de São Paulo, essa arte de disseminou pelo país. Os cultivadores pioneiros, como Noriyasu Seto, dessa mesma cidade, adotaram espécies orientais como juníperos e ácer, e fizeram diversas experiências para aclimatização dessas plantas estrangeiras, cujas sementes foram trazidas do Japão. Mesmo tendo acesso as espécies orientais, houve um imenso interesse em adotar plantas nativas no cultivo do bonsai. Ainda de acordo com Chuji Takeguma, o Sr. Tyotaro Matsui, imigrante, localizado na cidade de Gauimbê, interior de SP, cultivou o primeiro bonsai de espécie nativa, no início da década de 30. O bonsai se tratava de uma Primavera (bougainvillea spp), que atraiu cultivadores japoneses pela fato de sua imensa floração. Essa é uma das histórias sobre a arte do bonsai, como dito no começo do texto, não existem documentos que comprovem sua origem, cada site, cada livro tem a sua história.

fonte: Guia - Como Cultivar Bonsai, ed. casa dois

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Zamba Para No Morir (Hernan Figueroa Reyes)

Essa música é parte da minha construção, seguiu comigo num momento e ficou (mesmo tendo ouvido a primeira vez na voz de Mercedes Sosa). Se ela é triste? Depende de como cada um a traduz.



Romperá la tarde mi voz
Hasta el eco de ayer.
Voy quedandome solo al final
Muerto de sed, harto de andar.
Pero sigo creciendo en el sol,

Vivo.

Era el tiempo viejo la flor,
La madera frutal.
Luego el hacha se puso a golpear,
Verse caer, solo rodar.
Pero el árbol reverdecerá
Nuevo.

Al quemarse en el cielo
La luz del día, me voy
Con el cuero asombrado me iré
Ronco al gritar que volveré
Repartido en el aire a cantar
Siempre.

Mi razón no pide piedad
Se dispone a partir.
No me asusta la muerte ritual
Solo dormir, verme borrar.
Una historia me recordará

Vivo.

Veo el campo, el fruto, la miel
Y estas ganas de amar.
No me puede el olvido vencer
Hoy como ayer siempre llegar.
En el hijo se puede volver

Nuevo.

Al quemarse en el cielo...


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Mais uma do mesmo


nada tão comum
              que não possa chamá-lo:
meu


nada tão meu
               que não possa dizê-lo:
nosso


nada tão mole
               que não possa dizê-lo:
osso (do bagaço)

nada tão duro
             que não possa dizer:
posso



Cultive um pulmão no seu jardim


Dia 23 de setembro inicia a primavera no hemisfério sul. É o início de uma fase de renovação. A natureza passa a reativar suas cores e ofuscar seu brilho.

No dia 21 é comemorado o dia da Árvore.

Na escola, nos primeiros anos de minha educação alfabetizada, nessa época, ganhávamos uma mudinha para levar e plantar em casa. Era um misto de espécies nativas: aroeira, embaúba, pitangueira, ameixeira, goiabeira, cerejeira, etc. Cada aluno pegava uma, sortida. Todas elas, depois de plantadas e desenvolvidas, deram sua contribuição como elemento de manutenção da vida. Estabeleceram as trocas gasosas para nos possibilitar o oxigênio, ajudaram na infiltração da água no solo, na diminuição da erosão, serviram de abrigo, tanto para o sol quanto para a chuva, deixaram o ambiente mais fresco e confortável, além de servirem de casa e produzir alimentos para milhares de animais, insetos, outras plantas e microorganismos essenciais para a continuidade do ciclo biológico no planeta.

Plantar uma árvore significa um pouco de tudo isso. Você pode dar uma pegada mais poética, desenhar, escrever, declamar, encontrar qualquer outro sentido. O fato é que ela agrega tudo isso. Possibilita essa harmonia. Parece tão lógico. A importância que descrevo, talvez, nem fosse a ideia dos professores, na época. E talvez, o que importa nem tenha sido o sentido da comemoração em si. Sei que, desde ali, comecei a plantar um pedaço do meu pulmão, mesmo sem sequer ainda ter perdido um pedaço dele. Sem querer ajudei a recompensar um pouco da parte que também ajudei a destruir. E quando falamos de pulmão, falamos em respirar. Em sobreviver. Pulmão é autonomia. Como sobreviver?

Calma, isso é apenas conseqüência de tudo que consumimos. E não se preocupe, não estamos sós. Muitos, em tantos lugares, já também não possuem os pulmões. Já os consumiram. Outros, nem tem noção da perda.  Enquanto o ar ainda sobra e os pulmões ainda refrescam e aliviam o peito, continuo, apesar de tudo, praticando o auto-canibalismo. E o pior é que, até hoje, desde a época da escola, quase não tenho reposto os pedaços do pulmão que consumo.

Assim, mais uma vez, no mês de setembro me lembro de tentar buscar uma definição mais adequada para a palavra “Independência”.


(Publicada na Revista Premier - Setembro 2010)
http://www.revistapremier.com.br/site/Post/Post.aspx?id=1378

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

"Um homem passa a valer quando começa a entender e compreender a terra em que pisa". (autor desconhecido)

.

TIEMPO DEL HOMBRE - ATAHUALPA YUPANQUI



La partícula cósmica que navega en mi sangre
es un mundo infinito de fuerzas siderales
Vino a mí tras un largo camino de milenios
cuando, tal vez, fui arena para los pies del aire
Luego fui la madera. Raíz desesperada
Hundida en el silencio de un desierto sin agua
Después fui caracol quién sabe dónde
Y los mares me dieron su primera palabra
Después la forma humana desplegó sobre el mundo
la universal bandera del músculo y la lágrima
Y creció la blasfemia sobre la vieja tierra
Y el azafrán, y el tilo, la copla y la plegaria
Entonces vine a América para nacer en Hombre
Y en mi junté la pampa, la selva y la montaña
Si un abuelo llanero galopó hasta mi cuna
otro me dijo historias en su flauta de caña
Yo no estudio las cosas ni pretendo entenderlas
Las reconozco, es cierto, pues antes viví en ellas
Converso con las hojas en medio de los montes
y me dan sus mensajes las raíces secretas
Y así voy por el mundo, sin edad ni destino
Al amparo de un Cosmos que camina conmigo
Amo la luz, y el río, y el silencio, y la estrella
Y florezco en guitarras porque fui la madera




 

O sistema/1 (Eduardo Galeano - Livro dos Abraços)

Os funcionários não funcionam.
Os políticos falam mas não dizem.
Os votantes votam mas não escolhem.
Os meios de informação desinformam.
Os centros de ensino ensinam a ignorar.
Os juizes condenam as vítimas.
Os militares estão em guerra contra seus compatriotas.
Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.
As bancarrotas são socializadas, os lucros são privatizados.
O dinheiro é mais livre que as pessoas.
As pessoas estão a serviço das coisas.


A função da arte/2 (Eduardo Galeano - Livro dos Abraços)

O pastor Miguel Brun me contou que há alguns anos esteve com os índios do Chaco paraguaio. Ele formava parte de uma missão evangelizadora. Os missionários visitaram um cacique que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto e calado, escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram esperando.
O cacique levou um tempo. Depois, opinou:
— Você coça. E coça bastante, e coça muito bem. E sentenciou:
— Mas onde você coça não coça.

A função da arte/1 (Eduardo Galeano - Livro dos Abraços)

A função da arte/1


Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!


                                         ...


sexta-feira, 30 de julho de 2010

...


"Navigare necesse; vivere non est necesse".



***



A antítese do novo e do obsoleto
O amor e a paz, o ódio e a carnificina
O que o homem ama e que o homem abomina
Tudo convém para o homem ser completo.

(Augusto dos Anjos)

terça-feira, 27 de julho de 2010



"Tupi or not tupi, that is the question."

(O.A)



Sobre o sentido

O sentido, acho, é a entidade mais misteriosa do universo.
Relação, não coisa, entre a consciência, a vivência e as coisas e os eventos.
O sentido dos gestos. O sentido dos produtos. O sentido do ato de existir.
Me recuso a viver num mundo sem sentido.
Pois isso é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação.
Só buscar o sentido faz, realmente, sentido.
Tirando isso, não tem sentido.

(Paulo Leminski)


A VERDADE DO POETA

Quando um poeta diz à uma mulher que a ama,
Quase sempre está dizendo uma verdade,
Os poetas não mentem, e sabem que o amor é chama,
E amam intensamente, mas com uma dose de leviandade.

Dirás então que o poeta é sempre um leviano,
Mas tu erras em teu precipitado julgamento,
O poeta é um pouco mais que um ser humano,
Algo de divino está presente em seu pensamento.

Que mal há em amar então muitas mulheres
Se para isso é que elas foram feitas;
Mulheres são como flores, para serem colhidas,
Admiradas, cheiradas, serem belas e perfeitas.

Não há traição, portanto, nas intenções de um poeta,
Muitos de seus amores não passam de um sonho.
É que amar a beleza da mulher é sua grande meta,
E eu ponho minha mão no fogo por isso, juro que ponho.

A mulher que tiver um marido poeta, amante ou namorado,
Sem dúvida será uma mulher extremamente amada;
Pois o poeta entrega sua alma quando se diz apaixonado,
Entrega-se tanto a ela que nunca lhe faltará nada.

Mas se as mulheres forem daquelas que de tão ciumentas,
São capazes de exigirem mais atenção e exclusividade,
O poeta sente-se como se estivesse ardendo entre pimentas,
E desiste daquele amor e parte sem sentir saudade.

Não se zanguem, portanto, mulheres de minha vida;
Aceitem esta leviandade romântica e apaixonada,
Pois estarão mais seguras, amadas do que perdidas,
E é muito melhor ter só uma parte do que não ter nada.


(Ivan Jubert Guimarães)

Estilhaço

Sou poeta. Realista. Real como sou, mas não como sou poeta. Agressivo e meio estranho. Talvez normal - pouca pinta de mal. Simples. Na simplicidade que penso. Ilusionista. Um pouco rouco. Leio gibi e revista pouco. Amargo. Ouro e escarro. Poeta? Que sarro! Um caminho atrás. Já ouviu falar de amor? Ouvirás. Precoce. Transpiro e inspiro. Espirro e tosse. Na droga do pensamento. Careta. O que vale pode ser momento. E desse, apenas meio. Inteiro? Devaneio. O que vejo é o que veem. Não enxergam? Creem? E agora o que faço? Nada! Estilhaço. Não me lembro. Penso, logo existo. Ou existo porque penso? Esse caminho é uma jogada pouco estranha. Fácil. Se não se acerta, ao menos arranha.



quinta-feira, 15 de julho de 2010

Nem sempre mudam as estradas
(De repente, a forma de se caminhar nelas?)

É preciso observar, sentir, sonhar, seguir...
Criar o que para muitos sempre esteve pronto.
(Destino?)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

1/2 - 1/2 - 1/2


Eu procuro alguém que na vida me satisfaça

A metade da metade da metade
dos meus sonhos

A metade da metade da metade
dos meus desejos

A metade da metade da metade
dos meus prazeres

A metade da metade da metade deles.

E mesmo assim, com minha procura
não me satisfaço só com metades
(sempre busco outras metades)

Mas elas só serão metades das metades das metades
(somente metades)

com isso, acabo me dividindo sempre em mais metades


sexta-feira, 9 de julho de 2010

SEGREDO (Carlos Drummond de Andrade)

A poesia é incomunicável.
Fique torto no seu canto.
Não ame.

Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.
O mar transborda de peixes.
Há homens que andam no mar
como se andassem na rua.
Não conte.

Suponha que um anjo de fogo
varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.
Não peça.


quinta-feira, 30 de julho de 2009

CURTAS 4,5,6..


...dera eu, fosse o mar,

e navegar pelo seu léxico psicodélico líquido.


PEQUENEZ


E fostes tão algoz
agora
porém
não és o mesmo de outrora

E fostes além dos riscos
agora
 porém
estagnas num árduo conforto

E fostes tão instável
agora
 porém
ancora num lago sem beiras

E fostes tão quase
agora
 porém
pensas que um dia fora

E fostes tão por fora,
agora, porém,
estás mais dentro do que nunca.

E fostes tanto
agora
 porém
tens a certeza de ser pouco


terça-feira, 14 de julho de 2009

Curtas 1,2,3...


Morro,
sobrevivo a alma.
Alma?

Sim,
aquela mesmo 
de quando tentava ser poeta

Música

Na minha casa não há bandeiras
não há fronteiras
nem escuridão

Eu me abri
entreguei meu coração
você sorriu, disse não

Nada disso faz sentido
nada me faz sentir
Nada disso faz sentido
sem ter tido

"Querer o meu não é roubar o seu
pois o que eu quero é somente,
simplesmente em razão do eu"*

Há somente uma luz
uma força que me guia
a caminho do que não sei

Há somente poesias ingratas
encarnadas pelo ego do eu


*Trecho da música Novo Aeon, de Raul Seixas

terça-feira, 19 de maio de 2009

Trechos do livro CATATAU, de Leminski, publicado em 1975.


"Que flecha é aquela no calcanhar daquilo? Picatacapau! Pela pena é persa, pela precisão do tiro — um mestre. Ora os mestres persas são sempre velhos. E mestre, persa e velho só pode ser Artaxerxes ou um irmão, ou um amigo, ou discípulo ou então simplesmente alguém que passava e atirou por despautério num momento gaudério de distração. Flecha se atira em movimento, ninguém está parado. Nem o cavalo, nem o cavaleiro; nem a mente, nem a mão; nem o arco, nem a flecha, e o alvo o vento leva: tiro certo. Dentiscalpium in oculo. Todo teu lado direito puxa a linha, todo o esquerdo segura a flecha. Spes! Tiro feito, volta-se à unidade perdida. Mas arcos atrás isso não é coisa que se diga, que se faça, arqueiro pouco diz. Cala-se, de hábito, porque ignora tudo na arte em que é exímio. Depois, velhos não são dados a festas. Lísbia sabatária — bazanz! Sabazii sabaia! Copaplena! Muito sabe, pouco ri. Enquanto muitos riem, os mestres a portas fechadas meditam sobre a guerra. O primeiro gole de vinho melhora o tiro, o segundo gole — só Zenão! Assim como o primeiro tiro aprimemora o segundo tiro, a segunda flecha corrige a receita. Eclipse entra no sol em frente duma flecha persa, o sol pára e Xerxes o preenche a flechas. Como viver à luz de flechas? Da arte — não se vive; ver flor, calar. E calando a boca, de assunto mudo, vamos falar de flechas persas. O assunto me muda. O silêncio, próprio de alunos, instrui. Mas só os mestres sabem calar dizendo tudo. Tudo é ainda pouco. Na gata! Acertou na gata, paragate, parassangate! Tudo não tem detalhes. Na arte, detalhe é tudo, todo cuidado é pouco em se tratando dos mínimos detalhes que lhe derem na telha. Veja um mestre, por exemplo; como se move, como se levanta, como sabe fazer bem as coisas que todo mundo sabe. Mas há mestres e mestres. Nem todo mestre é próspero. Alguns cultivam artes sutilíssimas. Esses, às vezes, não têm apóstolos. São os últimos pioneiros. Livro não adianta. O dedo do mestre é sempre mais que o centro aonde aponta, ou não então? A cara dos mestres é o modelo das máscaras. Que cara alguém terá para erguer a máscara que jaz sobre a cara dos mestres? Tem uma palavra muito boa para dizer isso mas os mestres não ensinam a falar, só a fazer. O que se pode dizer da arte nada tem que ver com ela. O mestre é onde a arte já morreu: por isso, mestres não lutam. Sempre há coisas que aprender: um pequeno truque, um meneio mais rápido, um trejeito gaiato, um grito junto. O que os mestres sabem é o que há para aprender."

°°°

"A sombra traz um vento soprando o lume só para ver a que mundo este se resume. Mina e tresmina, por ventura, se for, pendura: já pensou o que é o bandido na história do gênero humano? O desqualificado atrás dos matos, esperando passar o produtor, e preda-o! Salpicado de súplicas, venham e envelheçam vindo: me castisalfo com pouco, — trinca e destrincha, pierre catrinta! Quem depois de assaltado, roubado e rapto, tendo perdido o senso da propriedade junto com seus pertences, segue seus captores e acaba tetrarca da quadrilha! Quando eu mais contava em ficar louco, fiquei apenas tonto, o que está para o pretendido assim como o pretendente está para a pretensão! Constrangido, quem me constrange? Constrangem-me alfângelos e quimelanges! Acenda essa cozinha, bota a ferver, ferviture-te, salutão! Não foi nada, todos compreenderão: nada sem certa luz que me miliúnica no apagar da vela — aos olhos deslumbra, ofusca, embacia, envesga, cega e vaza. Houve quem dissesse, aqui jaza como se estivesse em sua própria casa, tentando a ferro e fogo passar despercebido por meu ímã e águas, ora, onde é que nós estamos que já não reconhecemos os desconhecidos? Quer ter a bondade de martirizar essa santa ignorância? Levantar o dedo, é só não estarem olhando. Um odor, um abano asmático, um aceno espasmódico, um sínodo sistemático, ou então um som, ou senão for um reflexo, fiquei sem ter o que dizer, na surdina da oitiva, na pior das hipóteses! Quando não dá pé, pergunto: tão raso o quanto antes passei? Escantilhado em conheceiras, convosco quisera cruzadas serenimonhas em outras desencurtilheiras! Um acorde discrepante, um prenhilunho: combates são biscates, destaque os banquetes! O homem idôneo, no momento quandâneo, no lugar ubíquo: lautas mãos pilantras, incólumes na calamidade. Uma cabeçada no pé, uma mancada na palma da mão, uma cotovelada virando o coxo do cachorro magro, uma olhada atravessada, uma pedagógica no meio do pontapeito, amanhã, ao cantar o galo, sem saber de que lado, venham! Me arrependiam os cabelos, perde o pêlo no medo onde se pela, interpelanca: lã costeando, lá se dói tosqueado! Não fale mal de boca cheia, do prato cheio — não vire o ninho da galinha choca, dobre a língua e brade a vagina a seu bom bradar: meteu o braço na cumbuca, a cabeça a quem lhe caiba a arapuca; a perna me coxeia, percebo cancelas naquelas canceiras canelas. Num ouvido, escrito: . ENTRADA, noutro ouvido, escrito: SAÍDA — em cada rasto, a estampa de seu rosto para espanto de todo um outro resto! "

ººº

quarta-feira, 13 de maio de 2009

CURTAS ººº

Amanhã é outro dia
depois de amanhã outro
de repente, outros dias virão.

°°º ººº ººº ººº

Hoje sonhei estranho.
Tão sujo sonho.
Só restou-me um banho.

°°º ººº ººº ººº

O mar caminha pela areia
Vago na praia a procura:
Conchas, lâmpadas, sereias...

°°º ººº ººº ººº

Minha maior irresponsabilidade
Foi um dia acreditar
nessa tal responsabilidade.

°°º ººº ººº ººº

De onde todo encanto?
Promessas de amores?
Milagre de algum santo?

°°º ººº ººº ººº

Nadou, nadou,
Nada!
Afundou.

°°º ººº ººº ººº

Tudo ficou em paz.
Lendo um poema raso,
morri uma noite atrás.

°°º ººº ººº ººº

Nada foi tão quanto
Quanto foi tão nada
Quanto nada! Quanto?

°°º ººº ººº ººº

Dor elegante.
Tão dolorida que dói,
elegantemente todo instante.

°°º

O MAGO, SARAMAGO.





sexta-feira, 3 de abril de 2009

Pode ser que seja (música)



Mais um dia/uma palavra
Um sol/um só
Ao meio dia/a noite inteira
Um laço/um nó
Uma palavra/uma só boca
Uma lição que sabe de cor

E assim será
quem sabe seja?
Um pessoa
ou todos nós

Uma descida/uma bebida
Meia vida/melhor
No deserto/no mar
Palavra simples/código-mor
Numa estrofe/da poesia
Na caída/do sol

Na encruzilhada/na restinga
Há muitas milhas/há muitos nós
Numa rima/na melodia
Na multidão/a sós
Num precipício/numa planície
Na carne viva/no pó

E assim será
quem sabe seja?
Um pessoa
ou todos nós

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

POEMÁGUA


(Enchente em Joinville - foto que circulou pela internet)



Água chorando dos céus
cai agressiva
desliza pelas terras

não há mais ingestão
não há mais espaço na líquida margem
não há sol-ução

nem o vento furioso, nadem,
nada mais absorve

Agora é a vez...
Dona Água é quem nos engole.



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Guerra a quatro patas: ritmos adultos e melodias infantis

É guerra dentro da gente. Já com quatro patas a engatinhar tentar o impossível. A simplicidade navega pelas bordas da embarcação. Criança tem tema, enredo, estrutura e linguagem. Literatura e poesia, canção e ruído, verso e ritmo. A natureza exótica num conceito antigo. Um veículo da arte sem estar a serviço da arte. Uma atitude anti-dirigista irrompendo o decreto de funções, utilizações e modelos de comportamentos.

Deixar o sentimento deslizar pela boca. Facilitar a metamorfose ambulante do mundo. Chorar quando necessário, gargalhar quando conveniente e mostrar os caninos quando preciso. Não deixar habitar vergonhas e indiferenças, não se acorrentar em malícias ou falsos sentimentos. Brigar, pular, berrar, esquecer, desafiar, propor, deleitar. É ser infantil e não infantilista. Abusar da sinceridade. Achar o mundo perfeito. Quando não é! Não é? Não! Quando pode ser! Será?

De certa forma, ser criança é se libertar da superfície chamada “razão”, que impõe regras e reprime o desejo de mergulhar profundo. É fazer, ir, mais além que uma receita de bolo. É se lambuzar, desconstruir e testar idéias, deslizar pelo novo e interiorizar sensações, não compactuar verdades absolutas, voltar a experimentar sabores que estavam esquecidos, ter essência, medo. Mas, ser criança não é ser imaturo, nem nostálgico. É adaptar alguns itens do cardápio da infância com desejos e obrigações e não deixar que a estaca da responsabilidade censure o instinto da liberdade. É harmonizar atitudes e conceitos.

As obrigações das fases posteriores (ou o estresse, mesmo) atraem outros mundos, alguns, paralelos. Problemas, maus-humores, rancores. Falta de sinceridade com a gente mesmo. Engasga como fosse uma azeitona presa esperando uma pancada nas costas para cuspi-la. Parece aquele cara da propaganda eleitoral que tem uma abelhinha no ouvido. Só faltava começar o texto dizendo: faz quatro anos que uma azeitona entalou na minha garganta...

Criança transcende qualquer conceito, apesar dessas palavras. Dia comemorativo é só para homenagear, ou reforçar o esforço de libertá-la, como no meu caso. E ainda tem gente que detesta que criança seja criança.

(Crônica publicada na revista Premier - Edição nº 24 - Outubro 2008)
http://www.revistapremier.com.br/pagina_nova.asp?id=386&trava=Crônica

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A complexidade do público e privado

Difícil de conceituar, ou até mesmo, diferenciar o “Público” do “Privado”. Poderia sair pelas ruas de qualquer cidade, olhar a igreja, praça, prefeitura, posto de saúde, hospital, centro histórico e nominá-los como um ou outro. A questão estaca no peito algo mais profundo. O surgimento de novos espaços privados, semi-privados, semi-públicos, público-privado — shopping, espaços de lazer de condomínios privados, casa de recepções, espaços virtuais, órgãos públicos com administração privada — de certa forma assumiram uma função acolhedora da vida urbana. A nova configuração possibilitou novas interações sociais. Será que de certa forma decretamos a morte de alguns espaços públicos urbanos? A praça, abandonada, pode ser considerada morta por alguns. Para outros a praça não morre, está ali. Pode sofrer mutações, transformar-se. assim como, os conceitos ocidentais que levamos dela, a luta contra a lógica dominante dos sistemas.
A confusão entre o público e privado remete a uma das principais causas do caos urbano. É uma mistura de fatores históricos com a tendência neoliberal de privatização dos espaços. A mistura das antigas definições com a complexidade de teorizar as mudanças. Uma longa corrente presa ao pé. Os motivos pessoais sintetizam o entendimento de que são sempre mais importantes que os coletivos, alimentando uma espécie de barreira invisível, um narcisismo massivo. A vida privada está sendo trazida ao contexto público. Os espaços públicos onde as pessoas discutiam a gestão de assuntos de interesses comuns se transformaram em espaços publicitários. A paisagem pública passou a ser midiática. Os cidadãos cumprem seu papel: consomem informações.
Definir que tudo que não público é privado ou que tudo que não é privado é público é convencional. Porém, real – talvez a primeira definição que venha a cabeça. Num mesmo ambiente, dois ambientes. As entranhas da discussão parecem estar em delimitar as fronteiras. O público remete a algo de contexto social, coletivo, espaço onde ocorrem as relações políticas, contrasteando, o privado, com sua particularidade-privada-desigual: o shopping, publicizando o espaço e ao mesmo tempo vendendo seus serviços – todos podem estar, nem todos podem consumir. Na internet essa divisão parece não existir. Ao mesmo tempo em que o indivíduo fica privado no quarto, em seu computador, fica exposto ao público, seja através de comunidades, sites, blogs, provocando uma comunicação ampla, flexível. É através dela também que aumentou o espaço comercial, deixando muitas dúvidas sobre seus processos para a inclusão social.
A reformulação dos conceitos desses espaços, ou, um conceito novo, deverá surgir como necessidade para que sejam subtraídas algumas perguntas crônicas. A flecha da intensidade das transformações urbana, a meu ver, criou esses espaços contemporâneos, hoje também resultado das tecnologias da informação. Essas mudanças parecem que remetem o deslocamento dos espaços aos sujeitos humanos, e não mais dos sujeitos humanos aos espaços. Esse mesmo sujeito humano, que tinha vida privada, coloca em xeque agora seu caráter privado (sexo, família, preferências pessoais), e não mais somente sua performance pública. Parece ser absorvido pelo mercado e não mais pelo estado, família ou religião.

(Texto impresso na edição nº 70 do Jornal Experimental Primeira Pauta)

domingo, 10 de agosto de 2008

Outras perdidas por aí ººº



Descobri que era sim
me cobri de um não
mesmo sendo assim
mesmo sendo não

ººº ººº ººº ººº
Corri para fora
depois daquela aquilo
só descobri agora
que poderia ser isso?

ººº ººº ººº ººº
Na era em que velocidade da informação é fetiche
não resta muito tempo
para que o relógio deslize


segunda-feira, 30 de junho de 2008

Recalque de sintoma obscuro

Ela saiu sem dar tchau. Correu pelas ruas e roubou doces das bocas de crianças. Furou filas dos bancos e pulou roletas na estação. Correu pelas calçadas derrubando latas de lixo e espantou os pombos da praça. Transou no elevador com um estranho e cuspiu do alto dos prédios. Recitou besteiras ao pé do ouvido e gozou sementes de ópio. Foi esposa e amante, mãe e filha. Comprou roupas, carros e acessórios banais. Renegou seu passado e acertou suas contas. Lavou e centrifugou roupas sujas de verbo e lama. Leu aquele antigo livro e mastigou suas páginas. Saiu daquela razão ridícula e mergulhou em várias profundidades na imensidão de um lago. Dormiu de toca. Tomou café adormecido e inseriu doses letais de anti-ansiedade. Vomitou poesias baratas em becos imundos. Musicou seus dramas e teceu suas redes de prazer. Andou sobre brasas e queimou seus clichês. Elaborou coquetéis, levitando repentinamente, ressuscitando ao terceiro dia. Descumpriu os 10 mandamentos em pactos capitais. Absorveu o fluído: dentro pra fora e fora pra dentro. Vestiu-se de rato, gato, elefante, macaco, lobo, cordeiro, cachorro, coruja, urubu, e não pagou mais sapos nem micos-leões-dourados. Subiu no ponto mais alto e gritou. Ali, voou. Atirou-se por mais de cinco eternos segundos. Planou além do ar, todavia, libertou-se apenas de algumas prisões. O que ela alimentava não poderia ser explicado, medido e nem entendido. Em alguma forma que ela estava, sentiu saudades. Sentiu-se presa. Perguntou-se então: sou livre?

(Texto elaborado para a 7ª edição do Sarau Palavras Acústicas)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Vídeo do Sarau Palavras Acústicas

O Sarau Palavras Acústicas surgiu da iniciativa dos acadêmicos do curso de Jornalismo da faculdade Bom Jesus/Ielusc, de Joinville. Assista. ...

terça-feira, 6 de maio de 2008

Trocadilho com Lynyrd Skynyrd


Ar cortante, decifre
olhos comuns não enxergam
há muitos lugares que preciso ver
Tampouco vapores, tampouco celeste

Nada resta, que virá? 
Esse pássaro você não pode mudar
pássaro que
 plana alto
descerá (outros lugares)
longe (ou ao lado)
cintilantes
ao acaso
cortantes
como o ar que decifra 
voe alto
pois o céu
não se mede





segunda-feira, 5 de maio de 2008

domingo, 27 de abril de 2008

RASANTE




Aos pousos rasos
tropicava
distraía seus tombos
rolava ao chão entre galhos e pedras

emaranhava
retraía os músculos da testa
dopava-se de dores

emancipava
costurava autonomia
vestia-se de pássaro

caía
subia
descia

pousava raso e voava profundo


segunda-feira, 7 de abril de 2008

Máximas oscilantes


Depois de algum tempo escondido resolvi sair de dentro da garrafa. Não como gênio. Muito menos como quem espera um gênio. Simplesmente como alguém que sai de dentro de uma garrafa. Era sufocante. Nada como estar fora. O relógio girou os ponteiros tão rápido que meu tempo não pode acompanhar. Afinal, era uma garrafa ou uma máquina do tempo? As coisas estão aí. Algumas outras que estavam, não. E essas perguntas me faço: Quem estava? O que estava? Não me lembro! Não lembro! Talvez não devesse lembrar. Algo está ausente. Mas isso não é jogo dos sete erros! O que eu devo procurar? Algo pode estar faltando em qualquer parte, movimento, plano de fundo. O que devo distinguir é se realmente essa ausência faz diferença. Caso contrário deveria deixar como algo que sei que falta, mas não me impede de viver. Dizem que quando a gente não lembra é porque realmente não é algo importante. Dizem outras tantas coisas. Com o tempo talvez não perceba a ausência. Aliás, ela deve deixar de existir. Mas também pode aflorar. Apesar da segurança, preferi o risco. Saí arrotado. Percebi que caibo em pequenos lugares e por menores que sejam, não são desproporcionais pela espacialidade. Na garrafa que me escondi, escrevi um recado. Depois tampei-a e joguei-a ao mar. Um dia alguém a encontra. Hoje, aqui e agora, ainda procuro o motivo pelo qual saí. Creio não estar relacionado com uma ausência. Mas e a garrafa? Essa, talvez ainda navegue em algum ponto úmido ou tenha encalhada por areias desconhecidas.




segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

QUALQUER


Pássaros e seus cantos martelados sobravam nos verdes mais altos,
reproduzindo não só a espécie,
mas a poesia de um espaço qualquer

Pedras curvavam o meio de alguns caminhos,
simulando aos atalhos,
que seguiam rumo qualquer

Quando o corpo era somente corpo,
a alma caía pelas escadas roubadas,
entrava ao lado das portas fechadas,
seguia por uma rua qualquer

terça-feira, 27 de novembro de 2007

PÁGINA 161

Página 161

Desafiaram-me com a devida ressonância.

1ª) Pegar um livro próximo (não vale procurar);
2ª) Ir até a página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

E publico o resultado:

"Manuel enrolou a muleta para o touro."

In: Contos de Hernest Hemingway / tradução José J. Veiga. R.J: Bertrand Brasil, 2006.


Esse desafio bate-e-volta, volta ao desafiante, poetaço (mistura de poeta e cabaço) J.B, ao combatente do Baú da poesia, a Casa de Paragens (Rubens da Cunha), para uma criança, e para uma outra desconhecida viciada (conhecida) que descobri por aí.

José Eduardo Calcinoni