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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Recalque de sintoma obscuro

Ela saiu sem dar tchau. Correu pelas ruas e roubou doces das bocas de crianças. Furou filas dos bancos e pulou roletas na estação. Correu pelas calçadas derrubando latas de lixo e espantou os pombos da praça. Transou no elevador com um estranho e cuspiu do alto dos prédios. Recitou besteiras ao pé do ouvido e gozou sementes de ópio. Foi esposa e amante, mãe e filha. Comprou roupas, carros e acessórios banais. Renegou seu passado e acertou suas contas. Lavou e centrifugou roupas sujas de verbo e lama. Leu aquele antigo livro e mastigou suas páginas. Saiu daquela razão ridícula e mergulhou em várias profundidades na imensidão de um lago. Dormiu de toca. Tomou café adormecido e inseriu doses letais de anti-ansiedade. Vomitou poesias baratas em becos imundos. Musicou seus dramas e teceu suas redes de prazer. Andou sobre brasas e queimou seus clichês. Elaborou coquetéis, levitando repentinamente, ressuscitando ao terceiro dia. Descumpriu os 10 mandamentos em pactos capitais. Absorveu o fluído: dentro pra fora e fora pra dentro. Vestiu-se de rato, gato, elefante, macaco, lobo, cordeiro, cachorro, coruja, urubu, e não pagou mais sapos nem micos-leões-dourados. Subiu no ponto mais alto e gritou. Ali, voou. Atirou-se por mais de cinco eternos segundos. Planou além do ar, todavia, libertou-se apenas de algumas prisões. O que ela alimentava não poderia ser explicado, medido e nem entendido. Em alguma forma que ela estava, sentiu saudades. Sentiu-se presa. Perguntou-se então: sou livre?

(Texto elaborado para a 7ª edição do Sarau Palavras Acústicas)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Vídeo do Sarau Palavras Acústicas

O Sarau Palavras Acústicas surgiu da iniciativa dos acadêmicos do curso de Jornalismo da faculdade Bom Jesus/Ielusc, de Joinville. Assista. ...

terça-feira, 6 de maio de 2008

Trocadilho com Lynyrd Skynyrd


Ar cortante, decifre
olhos comuns não enxergam
há muitos lugares que preciso ver
Tampouco vapores, tampouco celeste

Nada resta, que virá? 
Esse pássaro você não pode mudar
pássaro que
 plana alto
descerá (outros lugares)
longe (ou ao lado)
cintilantes
ao acaso
cortantes
como o ar que decifra 
voe alto
pois o céu
não se mede





segunda-feira, 5 de maio de 2008

Gesto


Olhos acenavam
(ainda que o corpo fosse estático)

pouco dizia

descrevia em carne e couro



domingo, 27 de abril de 2008

RASANTE




Aos pousos rasos
tropicava
distraía seus tombos
rolava ao chão entre galhos e pedras

emaranhava
retraía os músculos da testa
dopava-se de dores

emancipava
costurava autonomia
vestia-se de pássaro

caía
subia
descia

pousava raso e voava profundo


segunda-feira, 7 de abril de 2008

Máximas oscilantes


Depois de algum tempo escondido resolvi sair de dentro da garrafa. Não como gênio. Muito menos como quem espera um gênio. Simplesmente como alguém que sai de dentro de uma garrafa. Era sufocante. Nada como estar fora. O relógio girou os ponteiros tão rápido que meu tempo não pode acompanhar. Afinal, era uma garrafa ou uma máquina do tempo? As coisas estão aí. Algumas outras que estavam, não. E essas perguntas me faço: Quem estava? O que estava? Não me lembro! Não lembro! Talvez não devesse lembrar. Algo está ausente. Mas isso não é jogo dos sete erros! O que eu devo procurar? Algo pode estar faltando em qualquer parte, movimento, plano de fundo. O que devo distinguir é se realmente essa ausência faz diferença. Caso contrário deveria deixar como algo que sei que falta, mas não me impede de viver. Dizem que quando a gente não lembra é porque realmente não é algo importante. Dizem outras tantas coisas. Com o tempo talvez não perceba a ausência. Aliás, ela deve deixar de existir. Mas também pode aflorar. Apesar da segurança, preferi o risco. Saí arrotado. Percebi que caibo em pequenos lugares e por menores que sejam, não são desproporcionais pela espacialidade. Na garrafa que me escondi, escrevi um recado. Depois tampei-a e joguei-a ao mar. Um dia alguém a encontra. Hoje, aqui e agora, ainda procuro o motivo pelo qual saí. Creio não estar relacionado com uma ausência. Mas e a garrafa? Essa, talvez ainda navegue em algum ponto úmido ou tenha encalhada por areias desconhecidas.




segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

QUALQUER


Pássaros e seus cantos martelados sobravam nos verdes mais altos,
reproduzindo não só a espécie,
mas a poesia de um espaço qualquer

Pedras curvavam o meio de alguns caminhos,
simulando aos atalhos,
que seguiam rumo qualquer

Quando o corpo era somente corpo,
a alma caía pelas escadas roubadas,
entrava ao lado das portas fechadas,
seguia por uma rua qualquer

terça-feira, 27 de novembro de 2007

PÁGINA 161

Página 161

Desafiaram-me com a devida ressonância.

1ª) Pegar um livro próximo (não vale procurar);
2ª) Ir até a página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

E publico o resultado:

"Manuel enrolou a muleta para o touro."

In: Contos de Hernest Hemingway / tradução José J. Veiga. R.J: Bertrand Brasil, 2006.


Esse desafio bate-e-volta, volta ao desafiante, poetaço (mistura de poeta e cabaço) J.B, ao combatente do Baú da poesia, a Casa de Paragens (Rubens da Cunha), para uma criança, e para uma outra desconhecida viciada (conhecida) que descobri por aí.

José Eduardo Calcinoni

FARO

Um instinto alto do prazer
debulhado por vasto trago
atitude similar

[peixe magro]

Caminho destilado de versos
silencia o lago
demolidor de pétalas

[olho de gato]

Nuvem magra, dispersa
ofuscante faro
brinde de água benta

[cheiro de mato]

NECROSE

Há uma saída [tentando sair]
(dúvidas encrustadas)
à espera de coragem

há um momento,
 perdido (acolhido)
à espera do achado

há um pecado dormido (amanhecido como o café frio)
à espera da viajem

há uma dúvida pregada (estaqueada)
à espera que a  ferrugem corroa

há um estranho no ninho (profano)
à espera do novo alibi

há sangue pulsando (alta pressão)
à espera da navalha

há um poeta, ressentido [quase necrosado]
à espera de coisa qualquer


terça-feira, 25 de setembro de 2007

ALGUNS LADOS (MOLDADOS)


Ao lado, nada mais que um gesto simples, dando a entender o que ali se estranhava. Nada menos que o mais simples, pensando em entender o como se entendia. Possibilidades impossíveis, transportando  bagagem maior do que suportava. E mesmo quando estranhava, esperava e suportava, estava sempre ao lado.



ME, MIM, COMIGO; SE, SI, CONSIGO...

Esses dias pensei comigo

e de tanto pensar,

nem lembrar eu consigo.


...

CONCLUSÃO (AINDA QUE AS VERDADES SEJAM MENTIRAS E AS MENTIRAS SEJAM VERDADES)

Algumas verdades são tão inúteis,

que sempre quando as digo,

penso que estou mentindo!


...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

FUNÇÃO

De todas as palavras ditas, apenas uma, somente, foi realmente ouvida. Nada que se falasse naquele momento seria tão relevante quanto aquela única palavra. Cantou-se músicas, leu-se poesias, rezou-se, mas nada, absolutamente, podia substituí-la. Porém, como nada é insubstituível, durou-se apenas aquele momento, e depois vieram outras palavras, em outros momentos, insubstituíveis.


...

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

ESPAÇO EDUARDO GALEANO


OS SONHOS DO FIM DO EXÍLIO/3

As lentes dos óculos tinham se quebrado, e as chaves tinham se perdido. Ela buscava as chaves pela cidade inteira, às cegas, de joelhos, e quando finalmente as encontrava, as chaves diziam que não serviriam para abrir suas portas.

extraído do Livro dos Abraços


...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

novo, de novo?


O novo
não é mais novo
não tem nada mais
nada de novo
tão novo quanto
a velha dúvida:

Quem nasceu primeiro:
a galinha ou o (n)ovo?


terça-feira, 24 de julho de 2007

Casos e acasos

Acaso nada poder
podendo causar nada
nada poderá causar

Acaso restando nada
restando nada causar
nada causará restar


quarta-feira, 13 de junho de 2007

TRUQUE


(!) Dormiu sortido (...)

(!) Sonhou azarado (...)

(!) Acordou embaralhado (...)

(!) Tomou café descartado (...)

(!) Escovou os dentes-coringa (...)

(!) Vestiu às de copas (...)

(!) Encarnou mais uma de suas caras-de-paus (...)

(...) saiu à procura de emprego(!?)


...

MOVIMENTO

Uma montanha se moveu
[pensamento honrou-mérito]


...objeto moveu
[cartas desmancha-castelo]


...olhar moveu
[enviou mensagem-despautério]


..veia moveu
[coração bate-martelo]


...sentimento moveu
[mostrando instante-belo]

segunda-feira, 14 de maio de 2007

CRIVO

Dentro de toda indiscrição submissa do compromisso altivo e relapso, existe uma severa corrente que produz intolerâncias e discrepâncias relativas.


O complexo é que na alteridade relativamente composta de vicissitudes e turbulências acromáticas, sempre há por vir uma emblemática e solucionática versão.


O fato se escriva do percurso ambulante, podendo em pequenos instantes desvincular a faculdade de racionar do paraíso elevante da insanidade mental.


A possibilidade se altera aos fatores premunidos de aceitação, e eleva o conteúdo estabilizado ao estado de dormência, descobrindo assim, que o caminho inutilizado mais provável nem sempre é o extremo do caminho convencional.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

OSSO E BAGAÇO

Se, destas frases tolas que ouço
houver apenas um trago
da poesia suja que me alimenta
poderei ao menos brindar
a incoerência destes fatos
poderei apenas destilar
o run da ignorância
poderei apenas desligar
o aparelho da sentença


Se, destes olhos fracos que enxergo
houver apenas uma dose
da percepção que me orienta
poderei ao menos escapar
da impotência dos fatos
poderei ao menos segregar
o frasco, a fragrância
poderei ao menos distanciar
o espelho do meu rosto


Se, destas poucas palavras restar apenas eu
fico eu sendo resto delas


fico eu sendo o osso
fico sendo eu o osso e o bagaço

domingo, 22 de abril de 2007

ESPAÇOS VAZIOS (ACIMA DE NOSSOS PÉS E ABAIXO DE NOSSAS CABEÇAS)

Além dos olhos que me guiam todos os dias, e das lembranças fartas de misericórdia, vi, através do mais simples desejo, novas formas de desfrutar diminutos espaços.

Entregue ao compasso desvinculado da razão, saltei sobre a valeta que criava uma divisão em torno de minhas decisões.

Em todos horizontes foi possível descobrir falhas. Espaços vazios camuflados. Lacunas invisíveis. Portas sem trinco. Lugares sem endereço. Palavras ausentes de som e forma.

Diminutos espaços: quase desfrutados.


...

segunda-feira, 9 de abril de 2007

LENTAMENTE

Se o olho não falasse além
e a lentidão que causasse o sentido, porém
não causasse-o somente,
e além não falasse freqüente
todo ser seria existente
no momento, sentido diferente
causar-se-ia uma lombeira
no olho do sentido ausente
que da lentidão de sentir além
lentamente o deixaria crente


domingo, 18 de março de 2007

CUSPE (AINDA MESMO QUE SEQUE A SALIVA)

Ventre sedento gozado de flores


saia do tempo teu


cuspa fora teu caos de amores



...

SER (NO AMPLO SENTIDO DO QUE SE PODE SER)

Se ao menos estivesse sendo


brincando de ser nesse mundo pequeno


todo ser seria sereno


...

PERTO-PASSO (PASSANDO À PASSOS LENTOS)

Aperte o passo

passe por perto

por passe-apertado

passo-alerta

passo-aperte

passado por perto

Aperte: passo-forte

passaporte-alerta

passa: porta-apertada

por passado perto

pé-par, por perto

Passo, posso, peça

apertando o passo

pé por perto

passado perto passo

pequeno ex-perto


...

INCIDENTE

Do que vivi, não peço-me desculpas
Do que deixei de viver, acato como potencial
Crio-me ao acreditar na capacidade do entendimento [mesmo sem entendê-lo]
Faço-me de prosas e versos, palavras sintéticas


Sou poeta, na mais pura incompetência de escrever
Numa auto-investigação,
Na psicografia do meu inconsciente
Escrevo-me, sem saber o que escrever


Provoco-me num absorvente sentimento
Falsa intimidade, farta em detalhes
Desdobrada pelo bel prazer de transformar
Escrevo porque organizo meu submundo
Concilio-me com meus fantasmas


Reconstruo-me nas consoantes e vogais
Destroços de verdades naufragadas em correções ortográficas
Que consolidam a quilha do meu barco literal
Veda os furos um a um
Criando um possível acidente na inquietação de minhas idéias

VIDE BULA

Não fuja do que tu és. Acalme-se. Busque a vida que a vida lhe buscará. O segredo não está em ir sempre mais fundo no imenso lago. Ele pode estar em vários lugares ao lado de onde você sempre existiu. Em profundidades tão rasas quanto a superfície.


...

quinta-feira, 1 de março de 2007

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

ROSAS E PROSAS NO VERSO

Rosas e prosas no verso
exaltantes olhos brilhantes
lábios cortantes e incertos
distraindo momentos-intantes



Essência central descentrada
unidade do universo-sentimento
necessidade de purificação travada
finito-infinito em momentos



Impulso irracional insatisfeito
necessidade tragicamente enganosa
finalidade fundamental de direito
fábula fascinante em prosa



Crítica irredutivelmente realista
alienação de desejos e esperanças
enigma da existência monoteísta
hierarquia-guia do homem-criança



Pleno, autêntico e carnal
redutor propositalmente ofuscado
direção especulativa anti-material
encontro sálvico consagrado



Perpectiva pessimista e conflitante
série de contradições inextricáveis
fraternidade universal intrigante
fecundidade de gerações implacáveis



Limitante da liberdade alheia
inesperança sem lógica e sujeição
impessoalidade celebrando ceia
ao bem, à beleza, doce-paixão



Ciência sem ciência, universo latente
paixão-tendência da ação imoral
caridade oculta: quando não se entende
repouso de paz, além-carnal



Lealdade sagrada, força da profecia
condução à vida bem-aventurada
indiscrição sedativa da noite-dia
posse inevitável, frustrada



Finalidade principal da lei divina
semelhança com efeitos submersos
manual de poesia que ensina
rosas e prosas no verso

...

DÍVIDAS

Frisei as garras do ódio


fiz do medo ópio

joguei fora verdades


destilei-me à cortes


Apostei todos dados


vinguei soluções

sem saber os problemas


desfragmentei meus átomos


Tudo fez-se de conta:


e as contas todas foram pagas
...

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

ELO

Suficientemente, tua presença me habita


Não sei onde tu estás


mas sempre chegas até mim.



...

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

VIDA DO EU

Mais um dia na vida do Eu:


um sonho assim nasceu
sem Ninguém desconfiar


mesmo Ninguém sendo Eu
Alguém foi alcançar


Sonhou assim como Eu
mas Ninguém quis acreditar


que Alguém assim como Eu

pudesse assim sonhar


Então, mais um sonho na vida do Eu

foi se realizar


Sem Ninguém atrapalhar

sem Alguém mal olhar


Do sonho que assim nasceu

só restará


Ninguém, Alguém


assim como Eu

DO MAR...

Mar imenso-aberto
ondas destino-coração
gosto sabor-mistério
sonho em mãos pegá-lo


--------------------------------


O mar é como se fosse proporcionalmente o inverso de um soro caseiro:

já possui a água com uma colher de sal,
esperando-nos como uma pitada de açucar.


---------------------------------


O mar

sete ondas numa vida
seio farto
mar
horizonte despedida


---------------------------------


Mar
pai-avô-filho
lembrança-rede-peixe
segredo-morte-vida
remédio-olho-alma


...

A epilepsia de um tom qualquer

Mãos nas cordas
cordas vocais não falham

notas, passam, passam
suaves, agudas, estranhas

relaxo em si
espelho do sol
ardente sem dó

(enquanto isso)

eletrizam escamas dormentes


...

SERÁ?

Se tudo pode ser

tudo pode poder ter

na esperança do que será?

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

SINTO

Sentir não é apenas sentir,

desde que se sinta

seguindo o sentido

sentimento de sentir.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

OUSADIA

Brinde ao som das borboletas
pairando sobre a gravidade
estetizando céu adentro
desenhando o ar
desfrutando liberdade

E para os leigos:
Quem ousará dizer que foi lagarta?

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

DA SAUDADE...

Saudade corta-lábios
beijos boca-tesão
cheiro mel-suor
desejo pecado-carne

************************

Saudade é o tempo
tempo que não passa
enquanto passa o tempo

************************

Saudade morta-mata
sentido vivo-viva
sentido morte-mata
saudade vide-vida

************************

Saudade
espinho crú de nervo e calo
pote d'água sem gargalo
Saudade
truque de carta fora do baralho

************************

Saudade
lembranças cristalinas
bomba sem efeito moral
ineficácia do poder
saudade
hino impossível de esquecer


segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

GOTAS DE ORVALHO

O sol se revalida
 ao céu pede carona

enquanto caem gotas de orvalho

sobre pés descalços
rachados pelo esforço diário

quando nada mais se encanta
sob a totalidade nada se distrai

me lembro quando criança
brincar de olhar o sol nascer
ao longo da mansidão

luz que irradiava
aquecia a alma

enquanto isso
 caiam gotas de orvalho

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

TRANSE 3 (UM DIA, DEPOIS DA CRIAÇÃO)


Descendo ao paraíso 
profundamente imaginário,
comi a maçã 
arrotei Eva.


CAMUFLAGEM

Escalei o morro dos sonhos
procurando o paraíso


no primeiro dia
o pecado bateu à porta
entrou aos olhares primeiros
conspirou sob dermes e salivas
abusou do meu eu


Sussurrou pelos lábios dela
transpirando prazeres


E como fiel seguidor dionisíaco
não rejeitei-me ao acaso
bulinei-me corpo e mente
afoguei meu ego


demasiadamente afinei meu instinto
no mar vermelho da sedução
mergulhando entre libidos e ilusões
fascinando aparentemente minha razão
que se destruía com a metástase ardente

e assim foi
camuflando-se
entorpecendo-me com o gosto passional do desejo


segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

REFLEXÃO - DESENCADEADO

Procuro não prender-me a um só estilo. Prefiro arriscar-me ao anticonvencionalismo, ao pacto com as idéias não-concebidas e aparentemente distantes. Acredito que o grande barato da poesia é ausentar-se de regras. É tão fácil copiar estilos ao invés de tentar criá-los, encontrar erros ao invés de tentar entendê-los, calar-se ao invés de arriscar-se, dificultar-se. Tão cômodo ter senso comum. O experimentar pode ser a chave para a inovação perceptiva, desencadeando uma abertura atemporal de qualquer estabilidade racional.

José Eduardo Calcinoni

OUTROS

Outro este? Porque não?
Se acaso fosse outro, igual não seria?
Se igual fosse outro, como explicaria?
Cópias? Outros como outros?

Mas se outros como outros:



A essência sobreviveria?


quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

RESPOSTA

Essa fonte de idéias que gera a arte de escrever nem parece às vezes que é inesgotável. Os black-out's mentais ocorrem freqüentemente no cérebro poético. Há horas, dias, meses, que às vezes passam em vão. Mas será que realmente passam em vão? Muitas idéias precisam de um período mínimo de gestação, seja no inconsciente, ou seja, informações já escritas e armazenadas. Assim como as fétidas fezes de alguns animais se transformam em poderosos e incomparáveis adubos, as palavras precisam também de um período de curtimento. Digamos que, assim como uma planta, ela nasce semente, cresce, floresce e produz seus frutos - nem sempre bons. Tudo pode ser aproveitado de alguma forma para alguma coisa. O sentido só faz sentido se o buscarmos. Talvez a busca seja o próprio sentido, no sentido de que buscando nos desviamos por atalhos sensitivos que nos preparam em "banho-maria", temperando e desengenhando o estável e o improvável.

MAIS

Dizer
Mais do que se possa sentir


Sentir
Mais do que dizer palavras


Olhar
E nada ver


Ver
Além do que se possa olhar


Escrever
Algumas palavras assim


Assim
Mais do que dizê-las


ABANDONO

Abandono

falta de inspiração
más idéias


álcool, gordura e samba

desafino
incanções

Osso do Bagaço


abandono-me

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

JORNADA - PARTE 2 - CAMINHANDO

Já no mais puro desejo de navegar e naugrafar no oceano da trangressão racional, para que assim pudesse ultrapassar um obstáculo emblemático e tão antigo quanto o instinto de reprodução das espécies, eu progressei deixando as primeiras pegadas da minha jornada.


No primeiro altar que subi, pedi à Zaratustra um golpe de luz, que pudesse desencadear minhas mais leves reações e petrificar os sentimentos que poderiam vir à ser minha cruz.


Saindo da região totalmente devastada de idéias, esbarrei num objeto misterioso e reluzente. Era um medalhão dourado. Nele, estava escupido um símbolo e letras à qual não tive menor noção. Guardei-o no peito como se fosse um amuleto de proteção, pois passei a acreditar que assim o fosse.


Retirei das minha tralhas um velho livro, de orelhas grandes, empoeirado, e, o abri de forma simples, na mais subjetiva intenção, prevendo que aquilo seria uma pista para meu próximo passo.


Então, na linearidade - justo aquela que nunca quis - do pensamento momentâneo, joguei o amuleto num lago de percepções reais, mas inexistentes. Deixei fluir somente oxigênio em meu corpo, meditando por alguns minutos, e aceitando mais uma vez meu estado imprevisível de decisão.



JORNADA - PARTE 1 - O COMEÇO

Meu golpe começou a instalar-se com um Distúrbio Bipolar de Animo, e conseqüentemente, acabou levando-me ao óbito do décimo sexto sentido que desenvolveria.

O que poderia agora um Cavalheiro de Verona como eu tentar desfrutar da própria ânsia de escrever elevando apenas o ato de que não decriptei meus rotores cerebrais?

Enquanto todos lá ficaram rodeados de mosaicos, tentando a purificação, eu acreditava [ainda que muito pouco], que o auxílio psicoterápico dos monoteístas, não efetuaria na própria distinção das confrarias dos Nagôs e Yorubas.

Saí em busca do visionário acrônico, que o chamavam de Pentateuco, onde agrega respostas para algumas interrogações crônicas de minha constante jornada.

Todas as pistas que deveriam levar-me ao êxito, me alertaram que o começo seria tão díficil e tão requisitado quanto o meio e fim [se é que assim posso reparti-lo].

No sopé do monte Horebe, logo após o lago de sangue [ou groselha se assim melhorar], recebi apenas mais uma de minhas rotineiras visões que não me esclareciam absolutamente nada.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

REFLEXO SÃO – BOSQUES-LOUCURA-ECO

A loucura é a profundidade abaixo da razão. A razão é a superfície de um lago-idéias-pensamento, que ultrapassada eleva a pressão-ágil-criação, nos libertando da decadência-moral-legal. É o pólen que origina o mel-instinto-inconsciência.




ANSEIO SISTEMÁTICO

Entre intrépidos sabores, o mais distante é o que sinto. Distante no sentido do normal. Normal que é o próximo do que somos — ou do que achamos ser, ou querem que sejamos. Seres impecáveis, implacáveis. Tolos sós. Sentindo a todo instante o sabor do pecado. Se é pecado original ou não? Não sei! O que importa é que nos liberta de um abismo sórdido e moribundo, rodeado de censos-comuns, papais-mamães, e, resultantes da simétrica razão. O sabor provém das misturas-sistêmicas — no amplo sentido da união substancial, porém, conservando suas propriedades específicas, resultando uma diversidade minimamente alcançada, onde o minimamente seja cada vez mais distante.

FLOR-HORMÔNIO

Caiu noite-tensa
Temeu medo-amante
Amou flor-primeira
Floriu essências-poucas

Subiu teto-céu
Serviu corpo-mente
Mentiu instinto-carne
Instituiu sintético-prazer

Desintegrou bruta-matéria
Bravejou presa-dentes
Preveu ferormônio-calor
Morreu gozo-primeiro




UIVOS

Passei pela rua dos prazeres
Roubei da donzela um convencional beijo


Cruzei a ruela afogado de salivas


Li Vatsyayana,
Atingi ao Artha, Dharma e o Kama


Joguei no lixo a imperfeição
Matei todas minhas ânsias


Dormi ao som dos uivos





MATA-VIRGEM-MATO

Não me mato de saudade
Mato-me no mato
Mato, saudade mata
Mata-virgem, mata-saudade
Saudade-morta, virgem-mato
Mata no mato-virgem saudade
Saudade de mato-não-mata
Virgem não mata saudade

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

TOLICE

O abismo das imaginárias e absurdas tolices
Desperta sedentamente o vinho do prazer



Embriaga ao ritmo obsessivo do acaso
Desconserta o caminho restrito de algumas palavras



Abandona o medo convencional crônico
Desobstrui as vias, veias e velhas manias



Mostra um caminho distante apenas da razão
Próximo de um lugar onde inconscientemente desejamos estar



quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

ESPAÇO DRUMMONDIANO

O que muda na mudança
se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança
junto ao que nunca se alcança?

LENDA QUE VIROU LENHA OU LENHA QUE VIROU LENDA?

Lá, daquela árvore

que caiu a casca
soltou a tinta
que pintou o pano
tingiu a rede

Lá, daquela árvore

que virou lenha


INCERTO

Orgasmo direto do sujeito composto
sentido no vácuo do pretérito perfeito
ouvido na imperfeição
do verbo intransitivo direto


Esquecido pelo sujeito simples
lembrado pelo superlativo oculto
absoluto num só instante
não é démodé nem moderno


Modernidade escrota entravada teoricamente
reduzida ao ninho na tocaia do vazio
reduto acéfalo bulinado
pela proeza do que se diz esperto

Artifício do provérbio babilônico naufragado
masturbado na massa cinzenta diluída
inutilidade contrária
ao raciocínio sequelado e incerto


segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

BAGAÇO

Que vida é essa?
Quanto poder de nada poder?


Carona com a solidão
Destino aberto


Bagaço de idéias furtas


Vida, vida, amada vida
Ama-me e não traia-me



CIO DO VAZIO

Paredes vazias
Segregam silêncios
Esquecidos no vazio


Quartos vazios
Integram ausências
Dispersas no vazio


Camas vazias
Refletem desejos
Nostálgicos e vazios


Cio do vazio


PACTO

Descabido pensamento
Inconstante pecado
Rodeia-me com fogo
Trata-me como escravo


Concede-me ao jogo
Sublime pacto


corpo e mente



NÃO DEIXE EM VÃO

Tanto tempo longe
Tampouco para estar lá
Tão perto sempre
Parece não estar


Tempos longos e distantes
Tempos sem se achar


Às vezes o instante de agora
O melhor tempo
Como se fosse inevitável
Único, descobrir


Não o faça amanhã
Hoje, não deixe em vão

COGUMELO PLATÔNICO

Mas afinal o que é o amor?
Um tema filosófico, teológico, artístico, místico?
O escrevemos, pensamos, falamos, sentimos?


Alguns pensadores consideram o amor como uma dimensão exclusivamente humana. Outros vão mais além utilizando determinação do divino como fundamentação, principalmente do seu lado dito positivo — relacionado ao amor de Deus e a sua importância para alcançar a salvação.

Platão foi o primeiro pensador ocidental capaz de elaborar uma reflexão específica e ampla sobre o assunto — que até hoje é inevitável termo de referência.

Em sua concepção o amor é uma força grande e poderosa que se caracteriza no impulso que se dá ao ser humano sinceramente sedento de sabedoria, e por isso dócil a tal impulso, a fim de superar as baixezas da vida material e da experiência sensível para elevar-se rumo às alturas do mundo ideal situado além do mundo físico, onde, segundo Platão, residem a Beleza, a Verdade e o Bem na sua pureza perfeição.

Para Platão o amor significa a disposição para elevar-se em busca do que é eterno, perfeito e imutável. Neste sentido o “amor platônico” revela a sua natureza essencialmente filosófica. Esse amor lança uma ponte entre o universo sensível e o universo puramente inteligível, entre o universo corpóreo e o espiritual, entre o relativo e o absoluto, entre o contingente e o necessário, entre o particular e o universal.

Sendo assim, a condição humana é caracterizada por uma espécie de escravidão da alma em relação ao corpo. O amor, porém, poderá ajudar a alma a reconquistar a sua posição primitiva e originária, contanto que as paixões não ofusquem demasiadamente seu lado positivo, isto é, um lado que, ao contrário, é justamente capaz de exaltar sobremaneira, possibilitando de fato a reunificação da alma com a trancedência.

Se o amor é somente um assunto relacionado à especulação teológica, não sei. Sei que todos os filósofos direcionam atenção especial. Sei que movimenta nossas mais diversas espectativas.


“O amor Platônico é cogumelo:
nasce, cresce,
suas propriedades criam pontes entre universos”

terça-feira, 28 de novembro de 2006

ESPAÇO LEMINSKI - 1


que tudo se foda,
disse ela,
e se fodeu toda

CONJUGANDO

Verbo 1

Eu mando
Tu mandas
Ele manda

Nós mandamos
Vós mandais
Eles obedecem

Verbo 2

Eu mando
Tu mandas
Ele obedece

Nós mandamos
Vós mandais
Eles obedecem

Verbo 3

Eu mando
Tu obedeces
Ele olha

Nós mandamos
Vós obedeceis
Eles olham


Verbo 4

Eu não obedeço
Mas tu não mandas
Ele apenas olha

Nós não obedecemos
Mas vós mandais
Eles nem mais olham

Ninguém faz porra nenhuma

EXUBERÂNCIA

Só os loucos caminhos retratam

Uma exuberante forma abstrata

Distintas palavras várias

Impondo situação precária



Paixão pela forma inexistente

Reluzindo a mente como espelho

Enxergando o que se sente, apenas,

Evitando o que está a frente


segunda-feira, 27 de novembro de 2006

ESTRANHO - 1

Ele olhou-a com olhos ímpetos de malícia. Ela passou e evitou-o friamente. Ele, no impulso irracional do fervor, alcançou-a e atirou pétalas e versos poéticos da mais pura inspiração. Conquistou-a. Então, fechou os ímpetos olhos, e pôs em prática suas malícias.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

APENAS AQUILO QUE PODE SER MAIS

Sobre a areia
energizo-me
disparo pensamentos imaculados de razão
jardim sem borboletas
flores falsas
terra pobre
piso na areia que não existe
não tem passo nem leveza
apenas energia
que fantasia pensamentos


segunda-feira, 2 de outubro de 2006

SOLUÇÃO

Ah! Pobre Luiziane! Sempre estava em seu canto, só. Quem via de fora sempre era solidário à causa. Ela repudiava seus colegas. Só conversava com garotos mais velhos e dos colégios particulares. A mãe de Luiziane era diarista e o pai vigilante noturno, ambos, dignos cidadãos. Diziam pelos corredores que ela "comia sardinha e arrotava caviar". Ah! Pobre Luiziane! Estava até com soluço! 




SAPO 3

Um sapo de gravata e salto alto desfilava pelas margens do lago. O sapo estava em campanha. Cantava e seduzia à anfíbios e insetos. As eleições dessa estação serão através do voto direto. Seus descendentes anuros nunca governaram a lagoa, porém, agora como míseros excluídos, são maioria. Seus maiores inimigos, que comiam os rivais, hoje se rastejam em outras lagoas, e os que ficaram, são aliados. Até na própria natureza sapos aliam-se à répteis em busca do poder. Talvez a explicação venha da ciência:"...são ectotérmicos, ou seja, a temperatura do corpo varia de acordo com a temperatura do ambiente". E que também afirma: "Os répteis põem menos ovos que os peixes e anfíbios, pois o sucesso reprodutivo é maior". Os anuros e seus decentes são em maior proporção, são a base do sistema que insiste em ser massa de manobra. Será que homem imita a natureza ou é essa a natureza do homem?


SAPOS 2



O sapo cantava no lago
O sapo comia insetos
O sapo namorava até as salamandras
O sapo não tinha medo das cobras
O sapo zoava

O sapo não "pagava sapo" pra ninguém



Vídeo em homenagem a minha poesia, 
musicado e gravado por Amcle Lima e Lucas VO.


SAPOS 1



O sapo foi morar na cidade
O sapo pulou na rua

entre um pneu e o asfalto crú
descobriu

porque a maioria dos sapos
prefere morar na lagoa



PAREDES

A parede do fundo
fundamenta o mundo

mundo de quatro paredes

onde vivem paralelamente alguns poetas


TRANSE 1

Subi pelos sonhos...

...desci pelo elevador de serviço.


OU VI E FIQUEI SURDO

Ouvi do mesmo ouvido

                         ou, vi do mesmo que ouvi


        absurdo

                                  surdo, fiquei


                       quando vi

                                            percebi 

                                                       nada tinha ouvido





sexta-feira, 29 de setembro de 2006

ALICE

Alice nasceu Alice
Alice cresceu Alice
Alice formou-se Alice
Alice casou-se Alice
Alice procriou-se Alice
Alice envelheceu Alice
Alice morreu Alice

Ali, se encontra um túmulo
Ali, se descobriu Alice

MALANDRINO

Galante urbano
trappolatore machiavellico
tenero vagabondo
cane selvaggio

Impatto favoloso
Indelicato malfattore
vampiro legittimo
sesso traditore

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

M I J O

Estava mijando no banheiro quando de repente algo estranho aconteceu. Escapou aquele jato — perdi assim todo o controle sob meu pinto — carimbando a tampa da privada. Olhei ao lado: no chão, duas possas reluziam aquele líquido segregado pelos rins. Uma bela arte. O brilho intenso lembrou-me as orientais pinturas. Relacionei o fato com minhas teias de conhecimento. Lembrei-me de quando  criança: brincava na hora de mijar. Fazia do ato um verdadeiro espetáculo. Tinha o mijo agressivo: aquele que sai com tanta pressão que o sujeito chega a prender a respiração. O barulho da urina em contato com a água da privada parece uma sinfonia xixilarmônica. O mijo reflexão: aquele que você fica horas de pé, olhando para o bilau e nada — enquanto isso se faz uma reflexão da vida, de repente ele começa a sair aos poucos, como uma bela borboleta destruindo seu casulo para voar majestosamente sob os céus. E aquele outro tipo que parece uma espingarda de cano duplo : saem dois tiros contínuos de água prontos para apagarem as chamas da imaginação. Não poderia deixar de fora aqui o mijo à distância, muito praticado na infância e adolescência. Segura-se o corpo do instrumento com força e faz-se pressão interna. Solta-o de uma vez e aquela mistura — água, uréia, ácido úrico e sal — levanta vôo batendo recordes. Há quem conte que certos indivíduos já ultrapassaram a marca de 10 metros, mas aí já entramos em outros méritos. Além disso, existe um fato constrangedor: mijar na cama. Engraçado, na maioria das vezes que isso aconteceu, sonhava que estava fazendo xixi, bem tranqüilo no banheiro. Sentia aquele prazer enorme: pura inocência! No inverno era até gostoso! Tem gente que acha que é só uma incontinência urinária necessária, mas o lado poético do ato de mijar viaja milhas e milhas além. Afinal, como no raciocínio publicitário do Neston, existem mais de mil e uma formas de mijar! Invente a sua!





ECCE HOMO SAPIENS

Eis o homem
sacerdote de seu princípio
aprendiz de filósofo Dionisíaco
o homem, seu próprio ídolo
irremediavelmente fatal
Ressentido, nascido de fraquezas¹
não é prejudicial a ninguém mais
que ao próprio fraco
guerreiro que vinga seus problemas
atira pétalas e chumbo
crítico da modernidade
fã da liberdade
radical em seus valores
em busca de sua maior esperança
infectado pela mágoa em si
insano pela religião e moral
mais um alto "astro do ser"
escolhido ao exílio
precipita-se com prazer no acaso
governa o mundo
chamavam-o de inspiração
eis o homem
tão silencioso quanto um canhão²
antes do tiro


1 - fragmento retirado do livro Ecce Homo (Friedrich Nietzche)
2 - frase de Heine

REFLEXO: 2

Não se esqueça
de esquecer às vezes
pois às vezes esquecer
nem me lembro mais

REFLEXO: 1

Vendo assim o mundo
acredito a cada segundo
que acreditar assim num mundo
e assim vê-lo a cada segundo
seja plenamente profundo
tão quanto acreditar nesse mundo

MOMENTO (ALGUM, DE ALGUMA SÉRIE)

Nada vejo além deste momento
sempre, além, vejo assim mesmo
Isso não passa de um vício
não caminho pra lugar algum
Existiam, fés-de-meia, pés-de-meia
acreditavam que tudo fim teria
Nada passa por minha prudência
além do vento cortante
míseros larápios
não entenderão a simplicidade
simples igualdade
pluralidade
denominarão como um descarte
Isso não passa de um erro qualquer
não caminho pra lugar nenhum
ficamos sós
(aspecto de profundo conhecimento)
momento protesto
somente
Nada vejo, além deste
e sempre, além, vejo-o

POETAS & GERMES


Decompõe-se no papel
estranhos eles

impercebíveis
como verdades

destacam-se por não destacar-se
planos vencidos

fio da faca imaginária
luz invisível

calibre da tinta
musgo do ventre

germinam

poetas e germes


PROCESSANDO

Cúmplice processo
abcesso oculto
luto distante
constante esfera

Espera mista
egoísta instante
à vante acaso
apreço místico

Nocivo lar
mar submisso
omisso abismo
cismo esteriótipo

neurótica evolução

AMORE ILLECITO




Imbecilità inabile
lezione liberale
letale libertà

Flaccidezza felice
filosofo forestiero
romanzo sanguinante


segunda-feira, 11 de setembro de 2006

CASO 2: NEGAÇÃO

Que dia: nada dá certo! Tentei me distrair. Não consigo tirar das cabeças. Noite passada: mal dormida. Sonhos embaralhados. Muito estranho. A única coisa que senti: sentimento de culpa. Afirmo: não sou culpado! Não sou culpado! Puta que o pariu! É a primeira vez que isso acontece. Tenho três filhos, 52 anos bem vividos, não vai ser agora que vou tomar esse tal Viagra.

CASO 1: SEDUÇÃO

Só de vê-la saciava uma fonte inesgotável de desejo. Adoro o cheiro. Pele bronzeada atrai o pecado. A cada mordida sinto um intenso gozo. Imenso sentimento de arrependimento. Mas, o instinto animal é fiel traidor. Hoje, com 31 anos, 126 kg, estou completamente decadente. Não como ninguém além da comida. Maldita gula!

LÁPIDE 2: OLHOS NÃO VÊEM! A ALMA SENTE!

Aqui jaz

um poeta míope










Vício 2

O galo cantava quando fui dormir. Acordei o sol já estava brincando de esconder. Assim, vários dias corridos à fio.

[Sinto que esse lado "boêmio-poético" está alterando meu funcionamento biológico e espacial.]

Só percebi quando a segunda-feira chegou.

Vício 1

Passava de duas da madruga quando levantou da cama. Dirigiu-se à cozinha para comer algo. Tentava dormir à horas. Resolveu confrontar a insônia. Comeu levemente, escovou os dentes. Voltou para a cama e sentou. Retirou do criado mudo um caderno onde descrevia detalhes das noites de insônia. Sempre fiel ao horário. Despertou através da insônia um grande talento, e nem percebeu, que há muito tempo não sofre mais desse mal.

Frusto

Carlos foi o primogênito de um casal da alta sociedade. O sonho dele sempre foi ser músico. Os pais nunca aceitaram. Formou-se em medicina há quase 15 anos. Porém, nunca sentiu prazer em atender pacientes nem no ofício. Ele sofre de insônia crônica e se sente deprimido. Carlos é um sonho frustado que foi realizado pelos pais.




Mentiras ou verdades?

De tanto mentir, acreditava que suas mentiras eram verdades. Não gostava de verdades. Quando morreu, um anjo veio lhe buscar. Não acreditou. Achava ser mentira. Quando descobriu que era verdade, decidiu acreditar que estava vivo.

Salvação

Simão da Conceição, 58 anos, pescador de profissão. Quando aporta das sua longas pescarias, a primeira coisa que faz é tomar um trago de caninha no boteco da esquina. Fuma desde os 13 anos de idade. Julga-se ateu. Desde quando casou, há 40 anos, nunca mais pisou em algum tipo de igreja, nem rezou para um deus ou santo qualquer. Descobriu que está com câncer nos pulmões e cirrose nos fígados. Levanta escondido todas as noites, liga a tela num desses programas religiosos -que prometem expulsar demônios, curas milagrosas e trazer felicidade- e não desvia um segundo da atenção. Simão da Conceição crê que não crê.


União

Silêncio e céu esquivo. Luzes repletas de insetos. Grilos em sinfonia. A lua minguante observava as estrelas. Tudo parecia ser tão leve. Na rua das Graças, número 16, o solitário Mário César faleceu. Uniu-se ao silêncio.



Recíproco

Era uma vez um marido leal. Pagava todas as contas da casa e faculdade dos filhos. Fazia amor -na mesma posição- todos os dias com sua amada esposa. Nunca chegou atrasado ao trabalho nem desmarcou um compromisso. Dormia todos os dias no mesmo horário e acordava antes do sol. Foi a rotina em pessoa. Não fumava, não bebia. Não gostava de música. Achava arte uma bobagem. Morreu aos 42 anos, vítima de si mesmo.


Nudez

O homem nú se despia. Caiam lágrimas e cinzas. O fio da faca amolou em seu pulso. Deixou cair seu último traje: o corpo. Sua alma ficou nua.


APENAS

Não há mistério
apenas dúvidas
falsas razões
fragilidades
#
Não há respostas
apenas perguntas
falsas verdades
desconstruções
#
Não há pecado
apenas lendas
falsa moral
obscenidade
#
Não há crime
apenas desvios
falsos estágios
eutanásia

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Oriundo

Eis que aqui estarei ao retorno do mundo
Esperar-te-ei ao contorno profundo
Buscando sem contingentes, simples mergulho
O que pode parecer oriundo ou absurdo


Viveis o tormento insano pelas curvas estreitas
Atormentas o que não percebes, sempre sua direita
Sorriso, a quem pode, não convém à desfeita
Construir-te-ei, e não serás meu orgulho, a tua tristeza

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Prazer e Medo

Numa esquina qualquer
O prazer e o medo
Prazer: cantando
Medo: calado
Prazer: dançando
Medo: sentado
Prazer: abrindo
Medo: fechado
Prazer: feliz
Medo: magoado
Na mesma esquina qualquer
o prazer descobriu que o medo
é o prazer de quem não tem medo

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

LÁPIDE 1: Embalagem




Criem-me em seus pensamentos
Imaginem hipóteses
Isto é só um túmulo
Foi-se apenas a matéria

A anti-lógica poética sobreviveu!


TRANÇAS E TROÇAS

Todos esses aí
Trocados por trocados
Onde estão?
Cheios de troças
Traçados estão eles
Eles quem?
Refiro-me a quem? Qual?
Similaridade
O último tango de imbecís
Quem são imbecís?
Todos esses aí
Inclui-se o reflexo do espelho
Mão, corpo, mente, autor
Trancei-me



QUEM?

Só comigo mesmo
tolo à toa
fé-falível
obstinado-meio
alcalino
sois quem sois?
celífluo
anti-cavo
osso-do-pão-ralo
serei-o
mesmo comigo só

SENTIDOS

Sentidos
assim implicam
decompõe-se
chama acesa

Fortes
inspiram lógica
indicam
o quase entender

Crus
prontos-semi
digeríveis
guiam-nos

Caminhos



Certo e Errante

O primeiro: perto
O segundo: distante
O primeiro: formal
O segundo: quebrante
O primeiro: esposa
O segundo: amante
O primeiro: pronto
O segundo: mutante
O primeiro: certo
O segundo: errante

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Nostalgia

Tu vives

numa nostalgia qualquer
[sentes o nada]
vives do que não mais pode
[olhas o que não mais és]

mas

tu vives assim mesmo!

Desdém

Olhares acuados de pessoas desdenhadas
Diagramação de palavras agônicas
Sentindo-se condicionados pelo acaso
Saboreando à prato nulo

Gestos, restos de perdão arruinados
Rentes, palma da mão batendo à cara
Linguagens discrepantes e nuas
Conduzindo ao estado de dormência

Pensamentos brancos, claros, vãos
De pesares adelgaçados
Lançados do caos ao cais
Acorrentando agilidade e paciência